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Há uma pergunta que devia fazer-se em cada sala de aula deste país, em cada gabinete ministerial, em cada conferência de imprensa onde se anunciam “medidas estruturais” com ar compenetrado: o que estamos, afinal, a fazer às nossas crianças?
A chamada escola a tempo inteiro nasceu embrulhada em papel de celofane social. Prometia igualdade, prometia oportunidades, prometia combater desigualdades. Quem ousaria contestar tão nobres intenções? O problema nunca esteve na intenção declarada. Esteve, e está, na execução política e na perversão conceptual.
A escola como parque de estacionamento social
A expressão é dura, mas a realidade é mais dura ainda.
A escola passou a funcionar, demasiadas vezes, como depósito prolongado de menores, uma espécie de armazém pedagógico onde o essencial deixou de ser aprender e passou a ser ocupar. O prolongamento do horário foi vendido como enriquecimento; na prática, transformou-se frequentemente em extensão indiferenciada do mesmo cansaço.
Uma criança de seis, sete ou oito anos não é um adulto em miniatura com uma agenda empresarial. Não precisa de jornadas laborais camufladas de atividades. Precisa de tempo livre, de tédio criativo, de rua, de família, de silêncio, de conversa, de aborrecimento fértil. Precisa de infância.
Neil Postman advertia para o desaparecimento da infância como construção social. Talvez não imaginasse que contribuiríamos para isso com tanto zelo administrativo.
Uma criança de seis, sete ou oito anos não é um adulto em miniatura com uma agenda empresarial. Não precisa de jornadas laborais camufladas de atividades. Precisa de tempo livre, de tédio criativo, de rua, de família, de silêncio, de conversa, de aborrecimento fértil. Precisa de infância.
A desresponsabilização elegante
A escola a tempo inteiro tornou-se, para uma parte das famílias, a solução perfeita. Não porque as famílias trabalhem, isso é legítimo e exige respostas sociais sérias, mas porque a tutela transformou a escola numa espécie de serviço público total, uma proposta híbrida entre centro de estudos, refeitório permanente e vigilância prolongada.
Quando a Escola assume tudo, alguém deixa de assumir alguma coisa.
A autoridade parental dilui-se. A exigência familiar esbate-se. O acompanhamento reduz-se a perguntas logísticas: “Tem trabalhos?”. Educar deixa de ser dever, passa a ser expediente.
O Estado agradece. Fica com o protagonismo moral. A família, menos comprometida, descansa na ilusão de que cumprir horários escolares é sinónimo de educar.
Hannah Arendt lembrava que educar é assumir responsabilidade pelo mundo e pelas crianças. Transferir essa responsabilidade para a instituição é confortável, mas profundamente irresponsável.
Professores: de docentes a animadores multifunções
No 1.º Ciclo, onde a monodocência já é brutalmente exigente por natureza, a dilatação horária tornou-se um exercício de resistência física e emocional. O professor deixou de ser apenas o mediador do conhecimento. Passou a ser gestor de tempos mortos, animador circunstancial, assistente social improvisado, amortecedor de frustrações familiares.
Tudo isto numa carreira degradada, esvaziada de reconhecimento, esmagada por burocracia e por uma tutela que fala de “valorização” enquanto empurra mais tarefas para o mesmo horário.
O discurso político fala de escola inclusiva, moderna, adaptada ao século XXI. O quotidiano fala de cansaço, indisciplina, exaustão e uma crescente perda de autoridade simbólica do professor.
Não se melhora a qualidade multiplicando horas. Melhora-se respeitando o tempo, o ritmo e a natureza do desenvolvimento infantil.
Crianças cansadas, adultos aliviados
A ironia é cruel: aquilo que foi apresentado como medida de justiça social acabou por produzir novas injustiças invisíveis.
Crianças que chegam a casa ao fim da tarde sem energia para brincar. Professores que regressam a casa esgotados, com a sensação de terem passado mais tempo a gerir comportamentos do que a ensinar. Famílias que confundem presença física na escola com formação integral.
E depois há a pergunta incómoda, aquela que nenhum comunicado oficial inclui: que mal fizeram as crianças para cumprir jornadas que muitos adultos contestariam para si próprios?
A infância não é um estágio preparatório para o mercado de trabalho. É um tempo com valor em si mesmo. Transformá-la num turno prolongado é um erro pedagógico e uma falência ética.
Tempo inteiro, pensamento curto
A obsessão pelo tempo ignora a qualidade. Mais horas não significam melhor escola. Significam, muitas vezes, mais desgaste.
Talvez esteja na hora de inverter a lógica: menos ocupação, mais exigência. Menos assistencialismo, mais corresponsabilização. Menos propaganda, mais verdade.
Porque a Escola Pública merece ser espaço de conhecimento, rigor e humanidade, não um serviço social de guarda alargada.
E, principalmente, porque as crianças portuguesas não nasceram para cumprir horário de funcionários administrativos.
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