Albergaria: o concelho onde estar doente é um privilégio para quem pode pagar

 


Imagem retirada daqui

Na verdade, a situação da Saúde em Albergaria-a-Velha é um caso de estudo de como um concelho pode ser formalmente “abrangido” pelo Serviço Nacional de Saúde, mas, na prática, deixar milhares de pessoas à porta dos cuidados que realmente precisam. Não é um detalhe técnico, é uma questão de equidade.​

Urgências fora de portas

O concelho de Albergaria-a-Velha está na área de influência do Centro Hospitalar do Baixo Vouga, que serve nove concelhos do distrito de Aveiro. No papel, há resposta hospitalar. Na vida real, há cidadãos que, em situação de urgência, têm sido encaminhados para Oliveira do Bairro, a cerca de 26 quilómetros de distância por estrada, com viagens próximas da meia hora.​

Para quem está doente, meia hora não é apenas um número no GPS, é um tempo de risco, de dor, de ansiedade, em que a geografia decide se a pessoa é atendida a tempo ou não. E convém lembrar o óbvio que parece escapar a quem manda: nem toda a gente tem carro, nem toda a gente tem família disponível, nem toda a gente tem ou está em condições físicas para conduzir até Oliveira do Bairro quando o corpo treme, dói ou falha.​

Quando ser pobre é duplamente azar

Num país que gosta de proclamar a universalidade no acesso à Saúde, continua a existir uma fronteira silenciosa: a do rendimento. Em Albergaria-a-Velha, quem não tem viatura própria, quem vive sozinho, quem conta as moedas ao fim do mês, enfrenta uma lotaria cruel sempre que precisa de cuidados urgentes.​

Impõe-se saber: quem paga o táxi até Oliveira do Bairro, ida e volta, quando o salário mal chega para a renda e os medicamentos? Quem garante transporte seguro a um idoso com mobilidade reduzida, a uma mãe sozinha com crianças pequenas, a um doente em situação de fragilidade extrema? A mensagem subliminar é simples, mas brutal: é muito azar ser pobre e estar doente em Albergaria.​

Diagnóstico sem meios de diagnóstico

Depois há o lado quase surreal desta história: num concelho que integra uma região com hospital de referência, os cidadãos não têm no próprio território acesso básico a meios complementares como Raio X ou ecografias. Não estamos a falar de tecnologia de ponta. Estamos a falar do abecedário do diagnóstico em saúde.​

O resultado é um rasto de deslocações para outros concelhos, de tempo perdido, de consultas adiadas, de diagnósticos que podiam ser antecipados e não o são. Em vez de aproximar o serviço das pessoas, o sistema empurra as pessoas para fora do concelho, como se Albergaria-a-Velha fosse um apêndice descartável da região.​

O silêncio confortável da política local

Mais inquietante do que a escassez de resposta é o silêncio político que a rodeia. As forças partidárias locais lá vão tocando no tema de vez em quando, com declarações vagamente indignadas, mas sem estratégias claras, sem calendários, sem pressão consistente sobre a tutela. Quem governa parece resignado à ideia de que “é o que há”. Quem faz oposição contenta-se com o soundbite e a nota de imprensa.​

Esta inação partilhada, poder e oposição de mão dada na irrelevância, é talvez o sintoma mais grave. Porque normaliza o inaceitável, transforma um problema estrutural de saúde pública num enfado burocrático, adiado de mandato em mandato, como se as urgências, os exames em falta e os doentes invisíveis pudessem esperar pelo próximo ciclo eleitoral.​

Uma pergunta que fica

No fim, a pergunta é desconfortável, mas inevitável: que valor tem a vida de um cidadão em Albergaria-a-Velha quando o acesso a uma urgência, a um Raio X ou a uma ecografia depende de quilómetros de estrada, da conta bancária e da boa vontade de terceiros? Enquanto não houver, no concelho, uma resposta de saúde digna desse nome, com meios de diagnóstico e urgência de proximidade, falar de coesão territorial e justiça social não passa de retórica com boa apresentação, mas péssima prática.

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