Flagrante delit(r)o...

Não só Vinho,


mas nele o Olvido


 


Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Na taça: serei ledo, porque a dita

É ignara. Quem, lembrando

Ou prevendo, sorrira?

Dos brutos, não a vida, senão a alma,

Consigamos, pensando; recolhidos

No impalpável destino

Que não 'spera nem lembra.

Com mão mortal elevo à mortal boca

Em frágil taça o passageiro vinho,

Baços os olhos feitos

Para deixar de ver.



Ricardo Reis, in "Odes"

Heterónimo de Fernando Pessoa



    Foto de João F. M. Viegas

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