- Obter link
- X
- Outras aplicações

Imagem retirada daqui
Tenho visto por aí que o culto da juventude não será apenas uma moda etária : estaremos, porventura, perante uma cultura de exclusão que ganha contornos preocupantes. O idadismo, esse preconceito subtil, e tantas vezes gritante, contra os mais velhos, passou de nota de rodapé sociológica para uma prática quotidiana. Jovens, com e sem diploma, exibem uma confiança que roça o delírio: julgam-se proprietários da inovação só porque nasceram no tempo da internet e das redes sociais.
Noutros tempos, ouvir os mais velhos era gesto de respeito, agora é exceção carregada de tédio. A palavra “experiência” parece causar comichão. Em contexto profissional, os veteranos são muitas vezes descartados como peças obsoletas, inadaptáveis, “com pouca flexibilidade”. Julga-se que o saber académico suprime o saber vivido, como se um manual substituísse a prática. A arrogância de quem desvaloriza décadas de trabalho, de vida, de acertos e erros reais, transforma-se numa espécie de censura intergeracional.
Em ambientes de trabalho, por exemplo, é comum ver-se, nas mais diversas áreas de atividade, a sabedoria empurrada para o canto, com rótulo de “inadaptável”. Como sublinham Iversen, Larsen e Solem (2009), o idadismo manifesta-se através de “estereótipos, preconceitos e/ou discriminação negativos ou positivos contra (ou em benefício de) pessoas idosas com base na sua idade cronológica ou com base na perceção de estas serem «velhas» ou «idosas»”. Tradução: há quem queira arrumar os mais experientes na prateleira só porque têm rugas ou não usam o TikTok.
O preconceito etário sob a pele da inovação
É irónico que tantos jovens, em nome do "pensar fora da caixa", adotem posturas tão uniformemente dissociadas do outro. O discurso aparentemente progressista vive de chavões mas morre na prática que exclui. E esta exclusão, sustentada num elitismo etário, põe em causa a possibilidade de diálogo e de aprendizagem mútua. As novas gerações tropeçam no paradoxo: clamam por diversidade mas recusam a intergeracionalidade. Carole Easton, CEO da organização britânica Centre for Ageing Better, recorda o óbvio que preferimos esquecer: “Ageism is prejudice against our future selves.” Ou seja, ao discriminar os mais velhos, estão a semear desprezo contra a imagem que o espelho lhes devolverá daqui a uns anos.
Pensar diferente não pode significar silenciar quem pensa com mais anos de estrada. Se os jovens não aprendem com os mais velhos, arriscam-se a repetir erros com muito mais entusiasmo do que lucidez.
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Comentários
Enviar um comentário