Na suspensão do tempo: o abraço que adia o adeus

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"Ficamos ali horas trocando nadas. simplesmente adiando o tempo.
Alongando o milagre de estarmos ali."

Mia Couto
em "O último voo do flamingo"

Há momentos em que o tempo se desacelera, não por magia, mas pela necessidade humana de perpetuar o que conta: um olhar cúmplice, o calor de um afeto silencioso, a respiração ritmada de quem amamos.

Em noites assim, aprendemos a alongar o milagre da presença, como quem estende os minutos por entre os dedos, adiando o inevitável fim.

É nessa partilha dos “nadas” que reside a eternidade do instante, tal como sugere Mia Couto: “alongamos o milagre de estarmos ali”, simplesmente porque amar é resistir à pressa do mundo.

Comentários

  1. Esta crónica funciona como um belo contraponto à adrenalina e ao movimento da cidade. É no descanso, no calor partilhado (com direito a um pequeno cúmplice de quatro patas no centro do abraço), que encontramos a verdadeira liberdade. Um texto que não precisa de pressa para ser sentido, lembrando-nos de que as melhores viagens são, muitas vezes, as que fazemos sem sair do lugar. Há uma boémia muito própria na quietude da noite, um espaço onde as grandes reflexões nascem das coisas mais simples. Citar Mia Couto para falar sobre a arte de "trocar nadas" traz uma densidade bonita ao texto. É uma escrita visual, quase cinematográfica, que nos faz querer parar e, simplesmente, respirar ao mesmo ritmo dessa imagem. Escrever com a luz da lua a entrar pela janela é quase como fotografar o silêncio.

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