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"Nada do que existe
nos cai do céu na cabeça.
Nem a chuva, embora pareça:
até ela estava cá em baixo a existir
antes de ser chuva e cair!"
Manuel António Pina
(Foto de Arno Rafael Minkkinen)
Há gestos que parecem nascer do nada, como se o mundo nos oferecesse milagres embrulhados em silêncio, mas nada do que existe cai do céu, nem a chuva que julgamos inocente.
Tudo espera, tudo germina, tudo se prepara cá em baixo, dentro de nós, nesse subsolo onde a memória conversa com o desejo.
A mão que emerge da água não escreve apenas no espelho líquido, escreve contra o esquecimento. Escreve porque sabe que a criação é um ato de sobrevivência e de teimosia. Escreve para que o mundo não nos dissolva.
E, no entanto, o reflexo persiste e devolve-nos a pergunta: quem escreve quem?
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