Portugal tem um talento particular para distribuir culpas. Se chove, o problema é do Governo. Se faz sol, a responsabilidade é da oposição. Se há trânsito, a culpa é dos emigrantes. Se não há trânsito, o país “está morto”. O país funciona muitas vezes como um imenso jogo de espelhos onde ninguém assume nada e todos têm sempre alguém a apontar o dedo.
No meio deste espetáculo quotidiano, pedimos civismo, mas continuamos a furar filas com a convicção de que somos exceção. Exigimos transparência, mas justificamos pequenos desvios com o eterno “foi só desta vez”. Queremos crianças leitoras, mas mantemos os livros fechados em casa. E aos sábados de manhã, discutimos com o árbitro do jogo de infantis como se estivesse em causa a dignidade da humanidade.
Se existisse um campeonato mundial de esquecimento cívico, Portugal subiria ao pódio com enorme naturalidade. Desaprendemos gestos simples como agradecer, dar passagem, escutar, pensar antes de publicar. E, sobretudo, desaprendemos a assumir responsabilidade individual. Somos rápidos a indignarmo-nos, mas lentos a agir. Rápidos a exigir, mas lentos a cumprir. Rápidos a pedir que “alguém faça alguma coisa”, mas incapazes de reconhecer que esse alguém somos nós.
A mudança não precisa de proclamações épicas nem de reformas grandiosas. Começa sempre numa pequena responsabilidade, naquelas que se evitam porque implicam esforço. A verdadeira ironia é simples: o país muda quando cada um muda a sua pequena parte.
As revoluções começam sem barulho, no instante em que deixamos de dizer “não é comigo” e começamos a dizer “é já, aqui”.

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