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“O desrespeito ao Professor retrata a decadência de uma sociedade”, a frase de Luiz Roberto Prandi ecoa como um epitáfio lido às portas de tantas escolas portuguesas. O início deste século abriu alas à morte lenta da autoridade docente, à corrosão do prestígio socioprofissional e à degradação salarial, que deixou de ser exceção e passou a ser regra. Como escrevi em Professores esquecidos: justiça, sim; valorização, nem vê-la!, já lá vão mais de 15 anos sem aumentos reais: quem quer, hoje, ser Professor? Tal como a desvalorização salarial do professor, novo pobre do sistema, vivemos numa era em que o tempo dos docentes é moeda barata, trocada por promessas vãs e burocracias infinitas.
Nada disto aconteceu de súbito, como um desabamento moral inesperado. Foi antes um processo paciente, quase ritual, conduzido pela sucessão de governos que transformaram a escola pública num laboratório de experiências políticas e num campo de provas para reformas improvisadas.
A certa altura, aceitaram-se como naturais as novas liturgias da desautorização. Normalizou-se a ideia de que o professor deve ser simultaneamente pedagogo, psicólogo, assistente social, burocrata diligente e gestor de expectativas familiares. Perdeu-se a noção do essencial, que é ensinar, transmitir conhecimento, construir pensamento e formar miúdos que saibam articular o mundo e nele agir com autonomia.
Enquanto isso, as condições materiais do exercício docente se foram esvaziando, ano após ano, com a previsível consequência: a profissão tornou-se pouco atrativa e profundamente desgastante. Onde antes se reconhecia autoridade intelectual, hoje distribui-se desconfiança. Onde se esperava respeito pelo saber, plantou-se a ideia de que o professor é apenas mais um prestador de serviços, sujeito a avaliações que medem tudo, menos o que interessa.
Se a escola é a base da República, então o país aceitou, com perigosa indiferença, que essa base fosse sendo corroída por dentro. E quando uma sociedade começa a tolerar a erosão dos seus professores, tolera, sem o perceber, a erosão de si própria.
Na minha análise em “A última luz acesa – o Professor que nunca desliga” exemplifico que, hoje, o docente é sobrevivente num sistema público que o consome, ignora e desvaloriza, roubando-lhe até os serões e a dignidade profissional. Não é por acaso que, em “Professores abandonam a profissão em massa”, denunciei o êxodo silencioso: a classe, fustigada pelo desprezo social e pela indiferença política, está a desaparecer.
Quando o Professor se torna invisível: o efeito devastador do desprezo institucional
Sociólogos como Pierre Bourdieu já advertiam que a “autoridade simbólica” depende do reconhecimento social e institucional. E quando a sociedade e o poder político tratam o Professor como um funcionário indiferenciado, perdem-se não só profissionais, mas também futuros cidadãos críticos. António Nóvoa reforça: “os professores precisam de ser autores, não executores de normas”. Falta-lhes autonomia, sobra-lhes burocracia e melancolia, como se lê em “Desburocratizar para Ensinar: medidas para libertar os professores”. O tempo de ensinar foi convertido em tempo de registar, validar e sobreviver.
Os números falam por si, mas escondem a realidade. O Estado elogia “resultados estatísticos”, mas ignora A Escola do 1.º Ciclo a morrer de velha. Privilegia relatórios, não rostos, não vidas. Tais políticas, sustentadas por politólogos como Hannah Arendt (“a educação decide se amamos o mundo o suficiente para cuidar dele”), transformam o ensino num ritual triste, refém da indiferença e da falta de visão para o futuro.
A sociedade assiste, anestesiada, ao empobrecimento dos professores. Responsabilidade? Do poder político, que eterniza a estagnação salarial e a erosão da autoridade docente. Da sociedade, que esquece que não há futuro sem uma escola viva e um professor respeitado.
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