O milagre do carrinho vazio: quando comer se tornou um artigo de luxo

 

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Entramos no supermercado e a sensação é sempre a mesma: não é uma ida às compras, é uma experiência paranormal. O carrinho sai quase vazio, a carteira sai absolutamente esvaziada. O pacote de arroz, o azeite, o leite, as massas, os enlatados, tudo aquilo que era vulgar, banal, quase invisível, transformou-se em artigo de luxo. Hoje, fazer uma sopa para a família já é um pequeno investimento.

E as explicações oficiais são sempre as mesmas, com ligeiras variações no refrão: foi a guerra, foi a energia, foi a seca, foi a logística, foi o transporte, foi “o contexto internacional”. Curiosamente, quando esses fatores começam a aliviar, os preços não descem. Têm elasticidade para subir depressa, mas uma lentidão comovente para descer. É como se o mercado tivesse molas só num sentido.

Entretanto, ninguém parece verdadeiramente interessado em pôr a mão nisto. As autoridades reguladoras fazem comunicados, o Governo diz que está “atento”, as grandes cadeias distribuem folhetos a prometer “descontos incríveis” sobre preços que elas próprias inflacionaram, e o Estado esfrega discretamente as mãos com a coleta do IVA e do IRS de quem lucra com esta escalada. Um verdadeiro milagre económico: quanto mais pobre fica o consumidor, mais saudável parece ficar o sistema.

No meio disto tudo, alguém está a ganhar muito e bem: grandes distribuidores com lucros robustos, grupos económicos cada vez mais concentrados, intermediários que vivem felizmente nesse nevoeiro de “custos” e “margens”, onde ninguém percebe bem quem cobra o quê. O que se percebe é simples: o salário fica, o carrinho encolhe.

E enquanto a mercearia básica se transforma num luxo, querem convencer-nos de que o problema é, claro, a nossa falta de literacia económica; nunca a gula de quem descobriu que a inflação é a desculpa perfeita para transformar necessidade em negócio de ouro.


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