A criança insuportável que me salva


"Uma única certeza
demora em mim:
o que em nós já foi menino
não envelhecerá nunca."
Mia Couto

Há dias em que me sento no banco da infância que fui, como este miúdo perdido num parque sem horas, e deixo que o silêncio me conte o que ficou por dizer. Não é saudade de brinquedos. É saudade de um olhar, o de quem acreditava que o mundo cabia inteiro numa bola esgaçada e num chão de terra onde tudo começava e nada doía.

A certa altura, ensinaram‑me que crescer era arrumar o menino na arrecadação, devolver o riso à gravidade e vestir roupa de gente séria. 

Mia Couto desmente esse engano: o que em nós já foi menino não envelhece, apenas se cala quando nos deixamos adormecer por dentro. Talvez educar, escrever, fazer política, seja justamente isto: encontrar maneiras decentes de dar voz a essa criança insubmissa, que insiste em perguntar porque raio o mundo dos adultos aceita como normal aquilo que é apenas absurdo bem vestido.

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