Escola S.A.: o triunfo das grelhas sobre os alunos

Entramos no reino luminoso das plataformas, onde a escola deixou de ensinar a pensar para ensinar a preencher. A Educação moderna tornou-nos gestores de burocracia, contabilistas de competências abstratas, técnicos de indicadores que piscam em ecrãs mas pouco dizem da vida real. O sucesso escolar transformou-se em exercício estatístico. Quando a realidade não cabe na grelha, encolhe-se a realidade.

A bitola desceu até ao chão para que todos consigam saltá-la sem esforço, sem suor, apenas com o clique certo. Neil Postman viu isto chegar há décadas: trocámos o sentido profundo da Educação por uma eficiência tecnológica vazia, quase ritualista. Criámos um humanismo de secretaria, frio, plastificado, inócuo.

O clique vale mais do que o aluno. O relatório transformou-se no novo deus das escolas. Exigimos excelência em grelhas coloridas enquanto ignoramos bairros onde falta o básico. Onde faltam recreios dignos, espaços abertos, tempo para respirar. A média tornou‑se a nova divindade, mesmo quando não passa de uma maquilhagem sobre feridas abertas.

Fingimos, por vezes, que ensinamos. Eles, demasiadas vezes, fingem que aprendem. O Estado finge que acredita. Trocámos o saber pela contabilidade política, somamos pontos com eficácia de fachada e perdemos a alma do ensino no caminho.

No fim, sobra uma geração com diplomas abundantes e espinha dorsal escassa. Um cenário mal montado a que ousamos chamar sistema
E o futuro? Esse espera sentado. Pensar dá trabalho. Mas desistir de educar sai muito mais caro.

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