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Há crimes que se cometem em silêncio. Este, pelo contrário, grita. Grita nas redes sociais, nos comentários, nos murais digitais onde o Português agoniza sem pudor. A crase, coitada, já não mora aqui. Foi despejada por decreto da preguiça e substituída por um “a” único, universal, indiferente, quase analfabeto.
O acento grave, outrora símbolo de rigor, tornou-se peça de museu. Um luxo vintage. Uma relíquia de arrogância intelectual. Se escreve bem, é snobe. Se usa a norma culta, é elitista. Se escreve como um bárbaro, é autêntico. O resultado é uma democratização da ignorância, límpida e orgulhosa. Sem filtros. Sem rubor.George Orwell avisou, em 1946, que a imprecisão da linguagem conduz à imprecisão do pensamento. No dia em que um povo deixa de distinguir o “há” do “à”, entrega-se de bandeja aos demagogos. A sintaxe morreu no pelourinho digital. Os verbos perderam os sujeitos. E os sujeitos, pobres diabos, já nem sabem quem são.
Vivemos tempos estranhos, onde o acessório se exibe e o essencial se atrasa. A correção transformou-se em ofensa. Dantes, a ignorância tinha vergonha. Hoje, faz diretos no Instagram. O idioma de Camões corre o risco de virar sopa de letras. Não se discute clareza, discute-se conforto. O erro tornou-se norma. A correção, pecado social.
Se esta reflexão incomodar, melhor ainda. Quer dizer que a inteligência ainda respira. Não peça desculpa por escrever bem. Não peça desculpa por exigir rigor. Existir com clareza nunca foi um erro. E não começará a sê-lo agora.
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