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Há palavras que se aproximam devagar, quase a medo. Não entram de rompante, instalam‑se. Sicofante é uma delas. O termo pousa na mesa como um frasco de perfume estranho, doce no início, enjoativo na segunda inspiração, intragável na terceira. E, no entanto, está por todo o lado. Circula pelos corredores profissionais e pelos corredores, ainda mais densos, da política, como um aroma persistente que não aparece nas atas nem nos relatórios, mas que todos reconhecem ao primeiro sopro.
Porque no poder, esse teatro antigo onde se representam as mesmas peças desde a Grécia, o cheiro dos sicofantes é quase um incenso ritual. Em repartições, gabinetes, partidos e assembleias, lá estão eles, sempre com a mesma coreografia. Não entram, deslizam. Não falam, insinuam. Não trabalham, orbitam. Trazem bolos ao chefe, elogios ao vereador, informações ao presidente e rumores fresquinhos, acabadinhos de inventar, ao facilitador de serviço.
E tudo embrulhado naquele sorriso que não é sorriso, é método.
Erasmo conhecia-os bem. No Elogio da Loucura, pôs-nos em procissão, ridículos e convictos, porque se alimentam do autoengano alheio. Maquiavel, por sua vez, não precisou de rir. Limitou-se a avisar: o poder cerca-se das vozes que lhe dizem o que deseja ouvir, nunca do que precisa de saber. E quanto mais alto o cargo, mais grossa a cortina de bajuladores.
No mundo profissional, o teatro repete-se. Na política local, então, nem se fala. Há sempre um sicofante competente na arte de elogiar o chefe certo, aplaudir a proposta conveniente, criticar o alvo estratégico, plantar a dúvida no colega útil. Chamam-lhe lealdade. Mas não é. Chamam-lhe espírito de equipa. Mas não é. Chamam-lhe estratégia. Mas não é. É apenas uma forma sofisticada de rastejar.
E o mais espantoso é que raramente são desmascarados. Muito pelo contrário. São promovidos, aplaudidos, convidados para a mesa principal. Aproximam-se do poder e afastam-se da decência. E quem trabalha, quem diz o que vê, quem recusa o jogo, esse fica com o rótulo habitual: difícil, inconveniente, problemático. Um clássico.
Porque num sistema invertido, a integridade é ruído. A bajulação é música ambiente.
Mas há um detalhe que importa lembrar: o sicofante não prospera sozinho. Precisa de palco, precisa de plateia, precisa de aplauso. E há sempre quem bata palmas, por interesse, por medo ou por mera falta de coluna. A política, mais do que qualquer outra profissão, oferece-lhes o habitat ideal: luz suficiente para serem vistos, sombra suficiente para agirem, e vaidade alheia pronta a ser explorada.
E assim o sistema alimenta-se do próprio veneno. Fecha-se sobre si, protege-se e expulsa quem atrapalha a narrativa.
Erasmo riu. Maquiavel avisou. E nós, que já os vimos de perto, continuamos a fingir que não vemos. Ou pior, continuamos a premiar.
Os sicofantes andam por aí. Em empresas, em escolas, em municípios, em partidos. Talvez porque, no fundo, há sempre um lugar vago à mesa. E há sempre quem esteja disposto a tudo… até levar o bolinho… para lá chegar.
bajulação na política
comportamento no local de trabalho
cultura organizacional tóxica
Erasmo
Maquiavel
poder e manipulação
sicofantes
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