O radicalismo da verdade perante a mentira elegante

The Treachery of Images (La Trahison des images) é uma pintura a óleo de 1929 
do artista surrealista belga René Magritte.

Atravessamos um momento perigoso em que deixámos de discutir factos para negociar versões. Já não importa o que aconteceu, mas sim o que convém que se diga. A mentira deixou de chocar. Agora circula leve, elegante, partilhada com uma normalidade que faz a verdade parecer apenas uma opinião mal defendida. Esta erosão do sentido irrita e desgasta, pois retira-nos o chão e o critério comum sobre o que é certo ou errado.

O mais inquietante não é a mentira em si, mas a sua falta de consequência e o encolher de ombros coletivo. Mente-se hoje, esquece-se amanhã. E quem mentiu segue o seu caminho, intocável, como se a verdade fosse um luxo antigo e dispensável. Mas a verdade não é um detalhe: é ela que sustenta a confiança, a justiça e a própria ideia de comunidade. Sem ela, resta apenas a lei da selva e a vitória de quem grita mais alto.

Resta-nos a escolha de recusar o silêncio cúmplice e a omissão conveniente. Nomear e expor, sem espetáculo, mas com a firmeza de quem sabe que a verdade não precisa de gritar. Precisa apenas de persistir. Num tempo onde mentir se tornou banal, dizer a verdade é um ato radical. É nessa fissura, aberta pela insistência no que é real, que o futuro ainda pode encontrar lugar para respirar.

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