Quando o “para sempre” tem saída de emergência

 

CERTO DIA

certo dia que lhes pareceu perfeito ele veio do lado esquerdo
ela apareceu do lado direito

depois desse encontro
levam-se ainda pela mão um ao outro
e nenhum deles suspeita
porque nem temem a mútua perda
que chegará o dia em que ele sairá pela direita
e ela desaparecerá pela esquerda

Anthero Monteiro

Há encontros que nascem com a arrogância dos eternos e morrem com a banalidade de uma porta batida. 

Ele veio da esquerda, ela surgiu da direita. Convenceram‑se de que o centro era deles, como se o mundo lhes devesse um “para sempre” em suaves prestações. Durante algum tempo, deram as mãos, confundiram costume com amor, hábito com destino. E, como quase toda a gente, esqueceram que a geografia da vida tem saídas assinaladas, mas nunca avisos de véspera. 

Um dia, ele afastou‑se pela direita, ela sumiu‑se pela esquerda. E o corredor ficou cheio de perguntas que nenhum deles teve coragem de fazer. Talvez seja essa a única honestidade possível nas histórias de dois: saber que até o perfeito tem fissuras, e que o verdadeiro milagre não é durar para sempre: é não mentir enquanto dura.

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