Vivemos com pressa para onde não vamos

 


Vivemos com pressa.
Muita pressa.

Pressa para tudo.
Pressa para nada.

A pressa tornou-se virtude.
Quem não corre é suspeito.
Quem pára é preguiçoso.
Quem pensa é perigoso.

O urgente passou a mandar no importante.
E ninguém sabe muito bem quem os apresentou.

Respondemos a mensagens enquanto falamos com pessoas.
Falamos com pessoas enquanto pensamos noutra coisa.
Pensamos noutra coisa enquanto o tempo passa.

E o tempo passa.
Sempre.

Corremos atrás do dia.
O dia corre à frente.
Nunca o apanhamos.

Vivemos ocupados.
Muito ocupados.
Tão ocupados que já não sabemos com quê.

Agenda cheia.
Cabeça vazia.
Consciência em modo avião.

Há reuniões para marcar reuniões.
E-mails para explicar e-mails.
Chamadas para dizer que não se pode falar agora.

E chamamos a isto produtividade.
Com ar sério.

A pressa é o novo estatuto social.
Quem anda devagar não tem sucesso.
Tem tempo.
Que é imperdoável.

O problema não é viver depressa.
É viver sem chegar a lado nenhum.

Falamos rápido.
Ouvimos mal.
Interpretamos pior.
Indignamo-nos sempre.

Tudo é escândalo.
Tudo é crise.
Tudo é agora.

E amanhã logo se vê.

Mas amanhã nunca chega.
Porque estamos sempre hoje.
A correr.

A pressa rouba-nos o essencial.
O detalhe.
O silêncio.
O olhar.

A pressa não pensa.
Reage.

Não escolhe.
Consome.

A pressa não ama.
Usa.

E depois queixa-se.

Talvez devêssemos parar.
Não muito.
Só o suficiente para perceber que parar não é desistir.

É resistir.

Resistir à estupidez do urgente.
À ditadura do imediato.
À ideia absurda de que valer é fazer muito.

Valer é estar.
Inteiro.

Porque a vida não é uma corrida.
É uma travessia.

E quem só corre.
Nunca vê a paisagem.

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