- Obter link
- X
- Outras aplicações
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Vivemos com
pressa.
Muita pressa.
Pressa para
tudo.
Pressa para nada.
A pressa
tornou-se virtude.
Quem não corre é suspeito.
Quem pára é preguiçoso.
Quem pensa é perigoso.
O urgente
passou a mandar no importante.
E ninguém sabe muito bem quem os apresentou.
Respondemos
a mensagens enquanto falamos com pessoas.
Falamos com pessoas enquanto pensamos noutra coisa.
Pensamos noutra coisa enquanto o tempo passa.
E o tempo
passa.
Sempre.
Corremos
atrás do dia.
O dia corre à frente.
Nunca o apanhamos.
Vivemos
ocupados.
Muito ocupados.
Tão ocupados que já não sabemos com quê.
Agenda
cheia.
Cabeça vazia.
Consciência em modo avião.
Há reuniões
para marcar reuniões.
E-mails para explicar e-mails.
Chamadas para dizer que não se pode falar agora.
E chamamos a
isto produtividade.
Com ar sério.
A pressa é o
novo estatuto social.
Quem anda devagar não tem sucesso.
Tem tempo.
Que é imperdoável.
O problema
não é viver depressa.
É viver sem chegar a lado nenhum.
Falamos
rápido.
Ouvimos mal.
Interpretamos pior.
Indignamo-nos sempre.
Tudo é
escândalo.
Tudo é crise.
Tudo é agora.
E amanhã
logo se vê.
Mas amanhã
nunca chega.
Porque estamos sempre hoje.
A correr.
A pressa
rouba-nos o essencial.
O detalhe.
O silêncio.
O olhar.
A pressa não
pensa.
Reage.
Não escolhe.
Consome.
A pressa não
ama.
Usa.
E depois
queixa-se.
Talvez
devêssemos parar.
Não muito.
Só o suficiente para perceber que parar não é desistir.
É resistir.
Resistir à
estupidez do urgente.
À ditadura do imediato.
À ideia absurda de que valer é fazer muito.
Valer é
estar.
Inteiro.
Porque a
vida não é uma corrida.
É uma travessia.
E quem só
corre.
Nunca vê a paisagem.
- Obter link
- X
- Outras aplicações

Comentários
Enviar um comentário