Quando o favor se mascara de normalidade
Há vícios nacionais que resistem a governos, reformas e discursos inflamados. A cunha é um deles. Muda de roupa, afina o discurso, aprende a falar baixo e a sorrir com educação, mas continua a fazer o mesmo de sempre: abrir portas a uns e fechá-las a outros. Em Portugal, ainda há demasiada gente convencida de que o acesso vale mais do que o esforço, a simpatia mais do que a competência e o contacto certo mais do que o trabalho sério.O problema é que isto já não se limita ao incómodo moral de quem vê outros passarem à frente. O problema é estrutural. A cunha corrói a confiança, desmoraliza quem cumpre e instala a ideia podre de que a regra existe só para os distraídos. Quando o favor se torna sistema, a justiça passa a cenário e o mérito fica a aguardar, mais uma vez, na sala errada.
A fila, a regra e a desigualdade disfarçada
A vida pública portuguesa ainda tolera demasiados atalhos com pedigree social. Na escola, na autarquia, no emprego, no acesso a oportunidades, continua a haver quem entre pela porta principal e quem tenha de esperar na traseira. E depois ainda se fala de igualdade com aquele ar cansado de quem confunde repetição com verdade.Mas a realidade não se curva a slogans. Quem trabalha em silêncio, quem respeita as regras, quem investe no mérito, vê demasiadas vezes o caminho ser encurtado para os de sempre. E a consequência é sempre a mesma: a confiança encolhe, a motivação escapa e a sociedade vai-se habituando a uma mediocridade bem vestida.
O custo invisível da cunha
O pior efeito da cunha não é apenas a injustiça imediata. É a erosão lenta da esperança. Quando as pessoas percebem que o esforço não basta, começam a desistir por dentro. E essa desistência é devastadora, porque transforma cidadãos ativos em espectadores desiludidos.Uma sociedade séria não deveria premiar a cunha, mas sim apertá-la até ao limite da tolerância. O favor pode continuar a existir nas conversas de corredor, mas já não devia ter lugar nas decisões que contam. O mérito, esse, precisa de deixar de ser discurso bonito para voltar a ser critério real.

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