A cunha nacional: o mérito à porta e o favor no centro da sala


Há vícios que envelhecem mal. A cunha é um deles. Continua viva, bem vestida e perfeitamente adaptada aos tempos modernos. Já não precisa de ser declarada com descaro. Basta insinuar-se. Entra pela conversa, pelo contacto certo, pela palavra trocada em voz baixa e pelo sorriso de quem “conhece alguém”.

O favor, em Portugal, é quase uma instituição paralela. Tem linguagem própria, métodos discretos e uma capacidade notável para ultrapassar regras sem levantar poeira. Quando se instala, o mérito fica à porta. Quem esperou, trabalhou e cumpriu vê-se ultrapassado por quem tem a proximidade certa, o apelido conveniente ou a relação adequada. E, como sempre, tudo parece normal.

Mas não é normal. É corrosivo.

A cunha não se limita a dar vantagem a alguém. Faz mais do que isso. Enfraquece a confiança coletiva. Diz às pessoas que o esforço pode não chegar, que a competência pode ser secundária e que, no fim, talvez valha mais conhecer do que saber. E quando essa mensagem se repete demasiado tempo, a sociedade começa a habituar-se ao absurdo como se ele fosse um costume respeitável.

O mais grave é que esta lógica não vive apenas nos grandes corredores do poder. Vive também nos pequenos gestos do quotidiano, nas decisões que se torcem, nas prioridades que se alteram, nas oportunidades que desaparecem antes de chegarem a quem as merecia. Vai-se instalando uma cultura em que a regra é vista como obstáculo e a exceção como serviço prestado.

Uma comunidade séria não se constrói assim. Constrói-se com critério, transparência e coragem. Com a capacidade de dizer que o favor não pode valer mais do que a justiça. Que a simpatia não substitui a competência. Que a proximidade ao poder não deve ser porta de entrada para tudo.

Enquanto não houver coragem para enfrentar esta doença antiga, continuaremos a fingir que a igualdade é uma virtude nacional, quando muitas vezes não passa de uma peça de propaganda. E a verdade, essa, continua à espera no corredor.

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