A dignidade de quem faz o que pode

 Photo Izis (Israëlis Bidermanas) | Châlon, 1950.

«Sejam quais forem os resultados com êxito ou não, o importante é que no final cada um 
possa dizer: 'fiz o que pude'.»
Louis Pasteur

Chove. A rua transforma-se num espelho irregular onde a pressa passa desfocada. Duas figuras permanecem imóveis atrás de uma mesa simples, protegidas por guarda-chuvas gastos. Flores pequenas, alinhadas com cuidado, insistem em existir num dia que não convida à delicadeza. A imagem diz muito sem precisar de uma única palavra.

Louis Pasteur lembrava-nos que o essencial não está no êxito, mas na consciência do esforço. No poder, raro e profundamente humano, de chegar ao fim e dizer: fiz o que pude. Não é pouco. É tudo.

Vivemos obcecados com resultados. Estatísticas, métricas, rankings, avaliações. Medimos quase tudo, menos a dignidade do esforço silencioso. A fotografia recorda-nos que há trabalhos que não triunfam, resistem. Há dias que não rendem lucro, mas mantêm a coluna vertebral da vida quotidiana.

O mundo passa, os carros borram-se em movimento, a cidade não abranda. Ainda assim, alguém ficou. Alguém montou a banca, apesar da chuva. Alguém cuidou das flores, mesmo sabendo que poucas mãos se iriam estender. Isto não é romantização da dificuldade. É reconhecimento da ética do possível.

Na educação, na cidadania, na vida comum, o fracasso não é tentar e falhar. O verdadeiro fracasso é abdicar antes de tentar. Quem faz o que pode, constrói caráter, mesmo quando o retorno é escasso. E o caráter, ao contrário dos aplausos, não se dissolve com a chuva.

Talvez seja isto que falte ao nosso tempo: menos arrogância de vencedores precoces e mais humildade de quem permanece. A imagem não oferece redenção nem promessa. Oferece decência. E lembra-nos, com uma sobriedade quase dolorosa, que fazer o que se pode continua a ser uma das formas mais altas de coragem civil.

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