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Os azulejos não são apenas beleza. Não são mero ornamento, nem lembrança simpática para turistas distraídos. São memória, história, identidade colada à parede, um idioma silencioso que o tempo aprendeu a falar connosco.
Portugal conta-se em azulejo nas igrejas, nas estações, nas casas antigas, nas fachadas gastas e belas das nossas cidades. Ali vivem o traço mourisco, o engenho português, a mão do artesão e a paciência do tempo. E o tempo, quando é verdadeiro, merece respeito. Não se arranca, escuta-se.
Mas há sempre quem veja arte e leia oportunidade. Há sempre quem olhe para um painel e pense em lucro. Tira-se um azulejo, depois outro, depois mais um, e quando damos por isso, a parede já parece uma boca desdentada, uma terra sem voz, uma casa ferida, um silêncio preso à cal.
O mais grave é o fingimento. Chamam-lhe coleção, chamam-lhe gosto, chamam-lhe negócio. Bonitas palavras para um gesto feio. Porque roubar património não é salvar história, é amputá-la. É vender um pedaço do que é de todos para enfeitar a vaidade de alguns.
E, no entanto, os azulejos resistem. Mesmo roubados, continuam a lembrar quem fomos. Mesmo feridos, continuam a ensinar beleza. Mesmo esquecidos, continuam a pedir cuidado. Cuidar dos azulejos é cuidar de nós. É perceber que cultura não é luxo decorativo. É raiz, pertença e responsabilidade.
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