Entre o gatilho e o azar: a sorte também anda armada

 

Há quem leve a vida com leveza. E há quem leve… uma pistola pendurada na cintura, como quem não confia nem no destino nem no próximo, como quem diz: “se correr mal, que ao menos seja certeira”. A imagem é um tratado silencioso sobre prioridades modernas: cinturão apertado, ferramenta à cintura, e uma espécie de amuleto de casino a espreitar pelo rasgão do quotidiano.

Vivemos tempos curiosos. Confia-se pouco no discernimento, aposta-se muito na probabilidade. Entre o cálculo e o acaso, há quem escolha ambos, não vá o destino esquecer-se de colaborar. É o pragmatismo do improviso: se a decisão falhar, que o gatilho nos salve a dignidade.

Mas atenção, a sorte não substitui o juízo, apenas o disfarça. E quando a vida se resume a um exercício de tiro ao alvo, o risco deixa de ser aventura e passa a ser rotina mal explicada. A ironia está aqui, visível e pendurada: queremos controlar tudo, mas levamos o imprevisto preso ao cinto, como um troféu.

No fundo, é isto: entre a responsabilidade e o acaso, muitos preferem não escolher. Vão equipados para ambos. E depois chamam-lhe equilíbrio.

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