Entre o que somos e tudo o que ainda podemos ser

 
Jorge Henriques - Portugal (Undated)
«Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.» 
William Shakespeare

Vivemos presos a uma ideia confortável de identidade. Dizemos quem somos com a mesma segurança com que repetimos o nome do lugar onde crescemos, o apelido herdado, a profissão que nos coube. Há nisso alguma verdade, mas também muita preguiça. Shakespeare avisou-nos com desconcertante lucidez: sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser.

A fotografia de Jorge Henriques fixa um instante que já não existe. Um pátio pobre em recursos, rico em humanidade. Crianças alinhadas, o chão irregular, a roupa estendida como bandeiras domésticas de sobrevivência. Ali não há destino escrito, apenas presença. Cada corpo pequeno é uma hipótese. Cada silêncio é uma promessa que desconhece a língua do futuro.

Gostamos de romantizar o passado, mas o passado raramente foi romântico. Foi duro, contido, económico nos gestos e nas palavras. Ainda assim, havia nele uma matéria-prima essencial: o tempo por estrear. Aquilo que aquelas crianças são naquele momento importa menos do que tudo aquilo que ainda não sabem que poderão vir a ser.

A educação, quando é verdadeira, nasce exatamente aí. Não na formatação, mas na abertura. Não na resposta pronta, mas na interrogação persistente. Educar é recusar o rótulo precoce, é suspender o juízo, é proteger a infância do excesso de certezas que os adultos gostam de impor para sossegar a própria ansiedade.

Também nós, adultos, continuamos a precisar desse intervalo. O erro maior não é falhar, é fechar a porta à possibilidade. Quando aceitamos viver apenas do que já somos, iniciamos um lento processo de desistência. Tornamo-nos repetição, caricatura, passado mal resolvido.

A fotografia não pede nostalgia. Pede responsabilidade. Recorda-nos que o futuro nunca está garantido, mas também nunca está condenado. Entre o chão áspero e a roupa a secar ao sol, existe um espaço invisível onde tudo pode acontecer. É aí que a educação, a política, a cidadania e a vida em comum deveriam começar. Não no medo do que fomos, mas no respeito profundo por tudo aquilo que ainda podemos vir a ser.

Comentários