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Há um silêncio estranho a instalar-se em muitas infâncias.
Não é o silêncio do descanso. É o silêncio da atenção capturada. Crianças que
já não esperam, deslizam. Crianças que já não procuram o mundo, procuram
brilho. Crianças que vivem rodeadas de estímulos, mas cada vez mais pobres em
presença.
O ecrã, em si, não é um inimigo. Seria demasiado fácil e até
preguiçoso dizê-lo assim. Há nele conhecimento, contacto, descoberta e até
alguma criatividade. Mas o problema começa quando deixa de ser ferramenta e
passa a ser companhia permanente. Quando ocupa o lugar da conversa, do jogo, da
imaginação e da relação com o outro.
É então que a infância começa a estreitar-se. Menos
brincadeira livre. Menos tempo sem ruído. Menos tédio fértil, esse espaço onde
tantas vezes nasce a invenção. Menos presença real e mais consumo de imagens.
Mais pressa. Mais dispersão. Mais dependência de um estímulo constante, como se
a vida tivesse de ser sempre acompanhada por uma luz acesa.
Depois admira-se a dificuldade em concentrar. A impaciência.
A irritação. A escuta curta. Mas talvez o espanto devesse ser outro: como
esperar serenidade, atenção e autonomia quando tudo à volta ensina a
fragmentação?
A responsabilidade, claro, não é só das crianças. É dos
adultos, sobretudo. São eles que entregam o ecrã, que regulam o tempo, que
confundem sossego com educação e distração com paz. Muitas vezes, o problema
não está no aparelho, mas no vazio que o rodeia. No cansaço dos adultos. Na
pressa. Na falta de conversa. Na ausência de tempo partilhado.
Educar, neste contexto, é também proteger a infância do
excesso. Ensinar a olhar sem pressa. Ensinar a brincar sem dependência. Ensinar
a estar sem precisar de estímulo permanente. Ensinar que viver não é apenas
consumir imagens, mas construir presença.
Se a infância for roubada pela luz azul, perde-se muito mais do que atenção. Perde-se relação, imaginação e, em parte, futuro.
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