Manual de sobrevivência para adultos funcionais… ou quase

 

Disseram-nos que crescer era ganhar certezas. Afinal, crescer é acumular contas e aprender a pagá-las com um ar sério, mesmo quando a conta bancária implora misericórdia. A vida adulta não traz respostas, traz faturas.

Ser adulto é abrir o frigorífico com esperança, fechar com resignação e repetir o gesto como quem acredita em milagres domésticos. Spoiler: o iogurte não se multiplica sozinho. Também é participar em reuniões onde se acena muito e se percebe pouco, dominando expressões como “sinergia” com a confiança de quem não faz ideia do que acabou de dizer.

Depois há o teatro quotidiano. Fingimos saber, opinamos com segurança, aconselhamos com convicção. No fundo, ninguém sabe bem o que está a fazer, mas há quem represente melhor. A competência, muitas vezes, é apenas uma boa encenação.

E claro, há os pequenos rituais de autoengano: prometer organização anual em janeiro, perder a agenda em fevereiro, consultar três vídeos para fazer arroz e, ainda assim, conseguir queimá-lo com talento.

No fim, sobra o cansaço. Um cansaço digno, apresentável, quase elegante. Porque ser adulto é isso mesmo: manter a compostura enquanto se improvisa permanentemente.

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