Política local: onde a vaidade se disfarça de serviço

A Assembleia Municipal devia ser um lugar sério. Devia ser o espaço da responsabilidade, o palco do contraditório útil, o sítio onde a política se encontra com a realidade, sem maquilhagem, sem prestidigitação política, sem frases feitas para recorte.

Mas nem sempre é assim. Muitas vezes parece mais um teatro de repetição: muitas palavras, pouca substância. Muita pose, pouca coragem. Fala-se como se falar bastasse, promete-se como se prometer resolvesse, discursa-se como se a eloquência pagasse contas, arranjasse ruas e corrigisse injustiças. Não paga. Não arranja. Não corrige.

A política local tem uma virtude cruel: desmascara depressa. Não há palco grande que esconda falhas pequenas. Não há distância suficiente para disfarçar a falta de trabalho. Aqui, tudo fica perto: as decisões, as omissões e as consequências. E quando a reunião acaba, fica sempre a mesma pergunta no ar: o que mudou, afinal ?

Há quem confunda mandato com notoriedade, cargo com prestígio, presença com serviço. Depois admiram-se de que os cidadãos olhem para a política com cansaço. Não é desinteresse, é saturação. Não é ignorância, é memória. Não é desdém, é prudência de quem já ouviu demasiadas verdades de ocasião.

Ainda assim, vale a pena insistir. Vale a pena exigir rigor e lembrar que a democracia não se alimenta de vaidades, mas de trabalho. Não vive de aplausos, vive de prestação de contas. Não precisa de atores com vocação para a câmara. Precisa de gente capaz de agir com seriedade, mesmo quando ninguém está a ver.

Comentários