Quando a Escola esquece a infância, o poder aplaude

Brincar é crescer por dentro. E uma Escola que honra a infância aprende também a ser humana.

Neste Dia Mundial da Criança, apetece-me escrever com mais do que a razão: apetece-me escrever com memória, com ternura e com indignação. Porque falar de crianças é falar do que ainda não foi estragado por completo, do que ainda resiste ao cinismo dos adultos, do que ainda acredita que o mundo pode ser mais leve, mais justo e mais bonito. E, precisamente por isso, a infância merece mais do que elogios de calendário.

A Escola, essa casa onde tantas vezes se promete futuro e se entrega cansaço, deveria ser um lugar de alegria séria, de descoberta, de brincadeira com sentido, de aprendizagem viva. Contudo, ao longo das últimas décadas, foi sendo empurrada para uma função cada vez mais ampla e, ao mesmo tempo, mais confusa: ensinar, sim, mas também guardar, ocupar, compensar, amparar, substituir. Chamaram-lhe “escola a tempo inteiro”, como se o nome bastasse para tornar virtuosa a intenção. Mas, muitas vezes, o que se construiu foi apenas mais permanência, mais vigilância e menos infância.

E isto importa dizer sem rodeios: a Escola não pode ser tratada como uma valência de apoio às famílias, nem como um armazém pedagógico onde se depositam crianças até à hora de saída. A Escola é, antes de mais, um espaço de aprendizagem, de cultura, de relação, de pensamento e de liberdade. Quando a transformamos numa extensão assistencialista da sociedade, estamos a desviar a sua missão e a sobrecarregar a infância com funções que não lhe pertencem.

Carlos Neto tem insistido, com a lucidez de quem conhece profundamente o desenvolvimento infantil, que brincar é fundamental. E é. Porque brincar não é perda de tempo, é construção de mundo. A criança que brinca explora, experimenta, imagina, aprende regras, cria linguagem, desenvolve corpo, afeto e pensamento. Tirar tempo ao brincar é empobrecer a aprendizagem e, ao mesmo tempo, ferir a própria infância.

Paulo Freire lembrava-nos que educar é libertar, nunca domesticar. E há escolas que, sem o proclamarem em voz alta, vão domesticando crianças em nome da ordem, da eficiência e do cumprimento. Há salas onde o silêncio vale mais do que a curiosidade, e rotinas onde a pressa atropela a delicadeza. Depois, muito depois, lamenta-se a falta de atenção, o desinteresse, a fragilidade do pensamento. Como se essas marcas não fossem, tantas vezes, o resultado de um sistema que tem tratado a infância como um problema administrativo.

Loris Malaguzzi dizia que a criança tem cem linguagens. Que frase tão luminosa, e que lição tão mal compreendida. A criança fala com o corpo, com o desenho, com o jogo, com a pergunta, com o espanto, com o silêncio. E a Escola, demasiadas vezes estreita e apressada, responde-lhe como se só reconhecesse uma ou duas dessas linguagens, e mesmo essas com reserva. O resto chama-lhe dispersão. O resto chama-lhe barulho. O resto chama-lhe falta de disciplina. Como se a infância tivesse de pedir licença para existir.

Johan Huizinga ajudou-nos a perceber que o jogo é fundamento da cultura, e não um simples adorno. O brincar não é um intervalo entre coisas sérias. O brincar é uma das formas mais antigas de humanidade. Talvez seja por isso que tanto poder se incomoda com ele: porque a criança que brinca não cabe totalmente nas grelhas, não obedece por inteiro à lógica da produtividade e não se reduz ao que é útil.

É aqui que entra a política, essa palavra tantas vezes usada para prometer e tão frequentemente empregada para esconder. O poder político em Portugal, ao longo das últimas décadas, foi alargando a Escola, mas nem sempre a foi tornando mais humana. Em nome da proteção, empurrou-a para uma dimensão assistencialista. Em nome da modernização, esticou horários. Em nome da igualdade, multiplicou permanências. Mas a pergunta essencial mantém-se: que qualidade tem este tempo? Que infância é esta, tão bem organizada e tão mal escutada?

Não escrevo isto por nostalgia de uma escola antiga, fechada e idealizada, porque a infância também não precisa de saudade mal embrulhada. Escrevo-o porque acredito que a Escola deve ser escola e não sucedâneo de tudo o resto. As famílias têm responsabilidades, claro, e não devem ser desresponsabilizadas dos seus deveres. Mas o Estado também não pode fingir que resolver fragilidades sociais é simplesmente empurrá-las para dentro da Escola. Isso pode aliviar estatísticas, mas não educa pessoas.

No fundo, celebrar o Dia Mundial da Criança é isto: não aceitar que a infância seja sacrificada à pressa dos adultos. Não aceitar que brincar seja tratado como luxo. Não aceitar que a Escola se transforme num lugar onde as crianças passam o dia inteiro sem, verdadeiramente, viverem o dia. É defender o direito ao tempo, ao jogo, ao espanto e à alegria.

Porque uma criança que brinca está a crescer por dentro. E uma Escola que a deixa brincar está, finalmente, a cumprir o seu lugar mais belo: o de ensinar sem esmagar, o de acompanhar sem prender, o de formar sem roubar a infância.


Nota bibliográfica
Neto, Carlos, reflexões e intervenções públicas sobre o brincar e o desenvolvimento infantil.
Freire, Paulo, Pedagogia da Autonomia e Educação como Prática da Liberdade.
Malaguzzi, Loris, textos e conferências sobre a abordagem de Reggio Emilia e as “cem linguagens da criança”.
Huizinga, Johan, Homo Ludens, sobre o jogo como fundamento da cultura.

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