Quando o sono é a única carteira vazia

 

"O professor disserta sobre ponto
difícil do programa.
Um aluno dorme, cansado das
canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
com medo de acordá-lo."
Carlos Drummond de Andrade 

A criança adormecida na carteira não é preguiçosa, é sobrevivente. Traz colada à pele a poeira da fome, do cansaço, das estradas que percorre antes da escola. A sala pobre, o mobiliário gasto, as sandálias frouxas dizem mais do que qualquer relatório sobre desigualdade. 
O professor que baixa a voz, como no verso de Drummond, compreende que, perante certas biografias, a lição de hoje é apenas este gesto de cuidado. Talvez este menino não recorde parte dos conteúdos hoje lecionados na aula, mas lembrará, um dia, que houve um adulto que não o acordou, que escolheu vê‑lo antes de o avaliar. 
E nessa escolha começou a verdadeira educação.

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