Portugal tem um talento antigo para a encenação: sabe vender luz, pedra, mar e história como se isso bastasse para garantir qualidade de vida. Há lugares que parecem cartões postais, ruas que sorriem para a fotografia e fachadas que tentam convencer-nos de que está tudo bem. Mas basta sair dois passos do enquadramento para aparecerem os passeios partidos, os serviços falhados e o património tratado como vitrine, não como responsabilidade.
O problema não está em haver beleza, ainda bem que há. O problema começa quando a beleza passa a servir de cortina, quando o cenário conta mais do que o chão, quando a aparência vale mais do que a manutenção. Pintar custa menos do que arranjar, prometer custa menos do que cumprir, fotografar custa menos do que cuidar. E, no entanto, quem vive nesses lugares não vê brochuras: vê ruas esquecidas, serviços medíocres e uma distância cada vez maior entre o discurso e a realidade.
No fundo, a pergunta é simples e desconfortável: queremos lugares bonitos para a fotografia ou lugares bons para viver? Porque não são a mesma coisa, e fingir que são é apenas uma forma elegante de enganar.

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