A ditadura da felicidade obrigatória

Nunca foi tão obrigatório parecer feliz. Não uma felicidade qualquer, mas uma felicidade apresentável, filtrada, pronta para publicação. As redes sociais transformaram-se numa montra global onde o cansaço veste um sorriso impecável.

Vivemos num desfile de plenitudes encenadas.

Toda a gente está grata, realizada, na melhor versão de si mesma. E, no entanto, há quem chore no carro antes de subir as escadas de casa. A vida offline continua a ter dias difíceis, mas online impera uma serenidade quase mística, sempre com filtro Valencia e legenda inspiradora.

Multiplicam-se os mandamentos modernos: acredita em ti, brilha, supera-te. Mas há dias em que a ambição máxima é almoçar em silêncio e pagar menos eletricidade. Não parece muito, mas é um projeto de vida honesto.

A indústria da felicidade fez escola. Há coaches para tudo: finanças, emoções, espírito. Em breve surgirá alguém a ensinar a espirrar com estratégia e propósito, e haverá, inevitavelmente, quem subscreva.

Outrora vendia-se banha da cobra, hoje vende-se desenvolvimento pessoal. Mudou a linguagem, inflacionou o preço, aumentou o risco. Porque no centro desta narrativa instalou-se uma ideia perigosa: a felicidade como obrigação contínua. Como se a tristeza fosse falha, o cansaço incompetência, a pausa um desvio moral.

Mas não é.

Há dias maus, noites longas, silêncios necessários. E talvez o gesto mais corajoso do nosso tempo seja assumir isso sem filtros nem encenações. A felicidade verdadeira não faz alarido. Não precisa de hashtags nem de provas fotográficas.

Às vezes, acontece num café tranquilo, numa conversa sem pressa, num abraço inesperado. Ou naquele instante raro em que ninguém nos exige grandeza, apenas presença. E isso, hoje, é quase revolucionário.

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