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Uma viagem pela mente inquieta de quem conduz como se estivesse a negociar com forças invisíveis
Há qualquer coisa de profundamente inquietante em seguir atrás de um condutor que não sabe muito bem se quer chegar ao destino ou apenas testar a resistência emocional dos outros. Acelera, trava, acelera, trava, como se estivesse a lutar contra um enxame de mosquitos que só ele vê. E nós ali, atrás, a entrar numa espécie de retiro espiritual involuntário, onde cada segundo pode ser o último… ou, pelo menos, o mais caro em termos de chaparia.Depois há os devotos da travagem preventiva, aqueles que encaram cada curva como um evento sísmico iminente. Mesmo quando a estrada faz uma curva tão suave que uma tartaruga com vertigens a faria sem pestanejar, lá vem o pé no travão, decidido, convicto, quase heroico. É uma forma de viver. Ou de travar a vida.
Mas nada supera o fenómeno do pisca invisível. Esse acessório, aparentemente opcional em certos veículos de gama elevada, tornou-se um luxo raro, quase decorativo. Há quem defenda que os BMW e os Mercedes vendidos em Portugal vêm desprovidos de piscas, não por defeito, mas por filosofia. A direção, ao que parece, é um assunto íntimo, quase existencial. Revelá-la seria uma quebra de privacidade.
E assim se muda de faixa como quem muda de ideias, sem aviso prévio, sem remorso, sem noção. Entra-se numa rotunda com a subtileza de um desembarque militar e sai-se dela em diagonal, como se a geometria fosse apenas uma sugestão. E quem vem atrás faz contas, não de cabeça, mas de sobrevivência.
Claro que há também o clássico nacional, o condutor contemplativo, aquele que circula a 30 km por hora, em comunhão com a paisagem e os seus próprios pensamentos. Mas mal alguém ousa ultrapassá-lo, desperta nele um espírito competitivo digno de um piloto de Fórmula 1. Subitamente, o carro ganha vida, o motor grita, e ali vai ele, possuído por uma urgência que até então parecia inexistente.
No fundo, talvez o problema não seja a condução. Talvez seja emocional. Em Portugal, não se conduz, compete-se. E, como em qualquer competição mal resolvida, o que está em jogo raramente é apenas o destino.
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