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Portugal é um país de prodígios estatísticos: dez milhões de habitantes e uma abundância generosa de especialistas em tudo. Selecionadores nacionais, pedagogos improvisados, analistas políticos de ocasião. Aqui não se conversa, diagnostica-se.
O português não opina, resolve.
Entre um café curto e uma raspadinha, redefine-se o mercado imobiliário. Em três frases certeiras, reforma-se o sistema educativo, sempre com a autoridade incontestável do argumento clássico: no meu tempo é que era. Diante de tamanha eficiência, as universidades tornam-se um luxo dispensável. Bastaria institucionalizar a mesa do café.
Mas o verdadeiro palco do génio contemporâneo é o Facebook, essa academia paralela onde a verdade surge em vídeos tremidos, narrados por vozes robóticas e embalados por música dramática. Quanto mais improvável a teoria, maior a convicção. Os pombos, por exemplo, são drones. E, convenhamos, faz todo o sentido que estejam sob tutela das finanças.
Depois há os profissionais da indignação. Estão contra tudo, sempre. Governo, oposição, clima, gerações, bicicletas e, provavelmente, contra o próprio conceito de peixe. Curiosamente, a única coisa que escapa à sua fúria é a ignorância própria, esse território sagrado onde nunca se entra.
Vivemos num tempo em que aprender perdeu prestígio, discutir ganhou palco.
E há um fenómeno fascinante: a relação inversa entre conhecimento e certeza. Quem sabe hesita, quem ignora proclama. Os primeiros duvidam, os segundos publicam frases inspiradoras com erros ortográficos e uma confiança comovente.
Ainda assim, os cafés resistem como centros culturais de alto rendimento. Ali se decide futebol, geopolítica e medicina preventiva antes das dez da manhã, sem dados, sem estudos, sem pudor. Portugal não precisa de inteligência artificial, bastava instalar microfones nas tascas. Em poucas semanas, estávamos prontos para governar o mundo, ou pelo menos para explicar como o fazer.
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