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Um estudo sociológico improvisado entre balcões, senhas e descaramentos elegantes
Há poucos lugares onde a natureza humana se revele com tanta clareza como numa fila. Basta um balcão de atendimento, uma manhã lenta e uma dezena de pessoas à espera para que surjam todas as nuances do comportamento social, do desespero silencioso à arrogância performativa.
As filas, em Portugal, não são apenas filas. São testes de carácter. E há quem os encare como meras sugestões organizativas. Olham para vinte ou trinta pessoas alinhadas e concluem, com uma segurança desarmante, que aquilo não se aplica a si. Não por maldade, mas por uma convicção íntima de excecionalidade.
Depois entram em cena os artistas da distração. Aproximam-se devagar, estudam o ambiente, olham para o teto como quem procura respostas existenciais e, quando damos por isso, já estão a meio da fila, perfeitamente integrados, como se sempre ali tivessem pertencido. É um talento. Ou um descaramento refinado.
E há a frase mágica, o passe universal: é só uma perguntinha. Nunca é. A tal perguntinha é um universo inteiro, com direito a faturas, reclamações, documentos esquecidos e histórias que remontam, no mínimo, ao final do século passado. E nós ali, a assistir ao desenrolar de uma saga burocrática enquanto envelhecemos em tempo real.
Nos hospitais, o fenómeno atinge níveis quase artísticos. Há técnicas de infiltração dignas de manuais. Entradas laterais, cumprimentos estratégicos, relações subitamente inventadas com funcionários. Em poucos segundos, a pessoa renasce numa nova categoria, algures entre a prioridade e a audácia.
O mais curioso é que, quando confrontados, estes ninjas da fila não recuam. Ofendem-se. Como se o verdadeiro problema fosse quem ousou reparar. A inversão moral é tão perfeita que quase merece aplauso.
No fim de contas, Portugal não tem filas. Tem arenas discretas onde se joga um jogo silencioso de sobrevivência social. E, como em qualquer competição, ganha quem melhor souber fingir que não está a competir.
As filas, em Portugal, não são apenas filas. São testes de carácter. E há quem os encare como meras sugestões organizativas. Olham para vinte ou trinta pessoas alinhadas e concluem, com uma segurança desarmante, que aquilo não se aplica a si. Não por maldade, mas por uma convicção íntima de excecionalidade.
Depois entram em cena os artistas da distração. Aproximam-se devagar, estudam o ambiente, olham para o teto como quem procura respostas existenciais e, quando damos por isso, já estão a meio da fila, perfeitamente integrados, como se sempre ali tivessem pertencido. É um talento. Ou um descaramento refinado.
E há a frase mágica, o passe universal: é só uma perguntinha. Nunca é. A tal perguntinha é um universo inteiro, com direito a faturas, reclamações, documentos esquecidos e histórias que remontam, no mínimo, ao final do século passado. E nós ali, a assistir ao desenrolar de uma saga burocrática enquanto envelhecemos em tempo real.
Nos hospitais, o fenómeno atinge níveis quase artísticos. Há técnicas de infiltração dignas de manuais. Entradas laterais, cumprimentos estratégicos, relações subitamente inventadas com funcionários. Em poucos segundos, a pessoa renasce numa nova categoria, algures entre a prioridade e a audácia.
O mais curioso é que, quando confrontados, estes ninjas da fila não recuam. Ofendem-se. Como se o verdadeiro problema fosse quem ousou reparar. A inversão moral é tão perfeita que quase merece aplauso.
No fim de contas, Portugal não tem filas. Tem arenas discretas onde se joga um jogo silencioso de sobrevivência social. E, como em qualquer competição, ganha quem melhor souber fingir que não está a competir.
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filas Portugal comportamento
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