- Obter link
- X
- Outras aplicações
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Quando a ternura dos avós se encontra com a higiene duvidosa e ninguém parece incomodado
O verão chega com o seu calor previsível, as praias cheias e uma tradição nacional que desafia qualquer noção básica de higiene: adultos a incentivarem crianças a fazer xixi no mar. E não, não é um fenómeno marginal. É praticamente um ritual. Sobretudo protagonizado por avós, essas figuras de ternura infinita que, à beira-mar, assumem inesperadamente o papel de gestores sanitários do caos.A cena repete-se com uma naturalidade desconcertante. A criança aproxima-se, aflita, e confessa a urgência. A resposta vem rápida, prática, quase pedagógica: vai à água, querido. Como se fosse uma orientação ecológica, um contributo para o equilíbrio dos oceanos. E ninguém se espanta. Ninguém questiona. Pelo contrário, há uma aceitação coletiva, quase cúmplice, desta pequena aberração.
Enquanto isso, à volta, famílias mergulham, brincam, abrem a boca em gargalhadas salgadas, alheias ao facto de que, algures ali, um pequeno cidadão está a aliviar a consciência e a bexiga em simultâneo. E isto não é um acidente. Não é um “aconteceu”. É um “vai lá fazer de propósito”, institucionalizado, legitimado, repetido.
Se transportássemos esta lógica para outros contextos, o absurdo tornar-se-ia evidente. Imaginar alguém a sugerir o corredor de um supermercado para resolver uma necessidade fisiológica seria motivo de escândalo imediato. Mas na praia, tudo se dissolve, inclusive o bom senso.
E, claro, surge sempre o argumento científico de bolso: o mar é muito grande. É verdade. Também o planeta é vasto e, ainda assim, conseguimos tratá-lo com uma displicência admirável. A dimensão nunca foi desculpa para a irresponsabilidade.
O mais fascinante, no entanto, é a leveza com que tudo isto é discutido. Conversa-se sobre o assunto enquanto se come uma bola de Berlim, com creme, sem que uma única sobrancelha se levante em protesto. Há uma confiança sanitária comovente, quase poética, que só pode ser explicada por uma fé inabalável na capacidade do mar de perdoar tudo.
O problema é que o mar não é uma entidade moral. Não absolve. Apenas dilui. E, pelos vistos, isso chega.
comportamentos na praia
costumes portugueses
educação infantil hábitos
humor crítico verão
ironia social
praia Portugal higiene
saúde pública praia
xixi no mar crianças
- Obter link
- X
- Outras aplicações

Comentários
Enviar um comentário