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Foto retirada daqui |
Neste fim de semana, haverá novamente passos a subir o Monte
da Senhora do Socorro. Uns movidos pela fé. Outros pela tradição. Muitos pelo
convívio. Todos, de uma forma ou de outra, porque aquele monte também faz parte
da sua história.
Uma memória que atravessa gerações
Há quem olhe para esta romaria como apenas mais uma festa de
verão. Engana-se. A Festa em Honra de Nossa Senhora do Socorro é um dos mais
importantes elementos da identidade coletiva de Albergaria-a-Velha. É um
património vivo que atravessou gerações e resistiu ao tempo porque nunca
pertenceu apenas à Igreja ou à comissão organizadora. Pertence ao povo.
O Santuário, erguido na sequência da promessa feita durante
a epidemia de cólera que assolou a região em meados do século XIX, continua a
recordar que a fé também nasceu da necessidade de encontrar esperança nos
momentos mais difíceis. Aquela capela não é apenas um edifício religioso. É um
testemunho histórico de uma comunidade que decidiu transformar o medo em
esperança e a esperança em património.
Uma mudança que merece reconhecimento
Este ano há, contudo, uma novidade que merece ser
sublinhada. O Município decidiu associar as comemorações do Feriado Municipal
às Festas em honra de Nossa Senhora do Socorro, concentrando no Monte parte
significativa da programação e envolvendo diversas juntas de freguesia e
coletividades. Trata-se de uma opção que merece reconhecimento. Aproximar o
Feriado Municipal de uma celebração com tão profundo significado para o
concelho pode contribuir para devolver centralidade a uma das suas mais fortes
referências identitárias.
Mas o verdadeiro sucesso desta opção não será medido pelo
número de visitantes nem pela qualidade do cartaz. Será medido pela capacidade
de transformar um bom momento numa política duradoura de valorização do Bico do
Monte.
Será este o início de uma estratégia consistente para aquele
espaço? Existe uma visão integrada que articule património religioso, cultura,
turismo, natureza, mobilidade e qualidade do espaço público? Ou estaremos
perante uma experiência pontual?
Também importa reconhecer que recuperar integralmente a
antiga dimensão popular da festa talvez já não seja possível. Os tempos
mudaram. As famílias mudaram. Os hábitos mudaram. As tradições não regressam
por decreto. Adaptam-se. Reinventam-se. E isso não lhes retira autenticidade.
Valorizar também é cuidar
Quem sobe ao monte leva consigo uma responsabilidade:
respeitar o espaço, preservar a natureza, proteger o património, evitar
comportamentos de risco, não deixar lixo e compreender que um local de
peregrinação continua a ser, antes de tudo, um lugar de recolhimento para
muitos.
A paisagem do Bico do Monte continua a ser uma das mais
belas varandas naturais do concelho. Não é apenas um cenário para fotografias.
É parte integrante da identidade de Albergaria-a-Velha.
Talvez esta renovada atenção sobre o Monte permita também
olhar para problemas que há demasiado tempo aguardam solução. Os moradores da
Rua da Senhora do Socorro conhecem-nos bem. Há anos que reclamam a reabilitação
do pavimento, a reparação dos passeios deformados pelas raízes das árvores, uma
gestão mais cuidada do arvoredo e melhores condições de acessibilidade. Também
os arruamentos que circundam a capela apresentam um estado de degradação
difícil de conciliar com a importância simbólica daquele lugar.
Será esta uma oportunidade para que essas reivindicações
deixem, finalmente, de cair no esquecimento? Porque valorizar um lugar também
significa cuidar de quem nele vive todos os dias.
Se queremos que este seja um espaço de referência para o
concelho, então a sua valorização não pode limitar-se aos dias de festa. Tem de
fazer parte de um compromisso permanente.
Tradições exigem responsabilidade
A experiência ensinou-me que a defesa das tradições nunca
deve servir de pretexto para complacências. Valorizar o passado exige exigência
no presente. O património não se conserva com discursos. Conserva-se com
investimento, planeamento e respeito.
Por estes dias, haverá música, haverá reencontros, haverá
oração e haverá festa.
Que haja também civismo.
Porque a verdadeira devoção mede-se, muitas vezes, pela
forma como tratamos aquilo que recebemos dos nossos antepassados e que um dia
entregaremos aos nossos filhos.
Uma escolha que se renova todos os anos
As tradições não sobrevivem sozinhas.
Todos os anos precisam de ser escolhidas.
E essa escolha começa em cada um de nós.
Se esta nova dinâmica vier para ficar, tanto melhor. Mas então que seja acompanhada por uma estratégia duradoura de valorização do Bico do Monte. Porque as festas passam. O património permanece. E cuidar dele é um compromisso que não pode durar apenas quatro dias por ano.
O Município associou este ano as comemorações do Feriado Municipal às Festas em honra de Nossa Senhora do Socorro, concentrando parte da programação no Monte. Uma opção que merece ser acompanhada e avaliada nos próximos anos.


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