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Educar dá trabalho. Fazer festa dá fotografias.
O dia diferente que se tornou igual a todos os outros
Há uma expressão que costuma surgir nesta altura do ano letivo com a frequência de um relógio suíço: "É um dia diferente."
E pronto.
Como se estas quatro palavras tivessem o poder mágico de suspender direitos, ignorar necessidades básicas e transformar professores, assistentes operacionais e alunos em figurantes de uma gigantesca operação de relações públicas.
Sob o pretexto do "dia diferente", multiplicam-se eventos organizados por autarquias que ocupam integralmente um dia letivo. Horas e horas de atividades. Palcos. Insufláveis. Música. Discursos. Fotografias para as redes sociais.
Tudo muito bonito.
Menos um detalhe: as crianças continuam a ter sede. Continuam a ter fome. E os adultos que as acompanham também.
Porque muitas destas iniciativas esquecem o essencial. Não garantem água. Não garantem alimentação. Não garantem condições mínimas para quem está ali desde manhã até ao final da tarde.
Aparentemente, o orçamento chega para os cartazes, para os brindes e para a propaganda institucional. O problema surge quando é preciso garantir uma simples garrafa de água.
O almoço: a pausa que desapareceu
Há outro fenómeno curioso.
Quando a atividade dura o dia inteiro, desaparece algo que qualquer trabalhador considera elementar: a pausa para almoço.
Professores e assistentes operacionais veem-se frequentemente empurrados para uma espécie de limbo profissional.
Não estão a trabalhar? Estão.
Não estão em pausa? Também não.
Não recebem refeição? Não.
Não recebem qualquer compensação? Também não.
Mas ninguém parece incomodado.
Porque, mais uma vez, "é um dia diferente".
Uma frase que, pelos vistos, serve para justificar tudo.
Menos o respeito por quem assegura diariamente o funcionamento da Escola.
As Festas de Final de Ano e a transformação dos Professores em animadores
Se as autarquias exageram nos eventos, algumas associações de pais conseguem superar a fasquia.
Chega o final do ano e instala-se uma espécie de delírio coletivo.
A prioridade deixa de ser celebrar o percurso das crianças.
Passa a ser produzir espetáculo.
E, para isso, os professores são frequentemente transformados em encenadores, coreógrafos, técnicos de som, produtores de eventos e especialistas em entretenimento.
Ensaiam-se danças.
Ensaiam-se músicas.
Ensaiam-se coreografias.
Ensaiam-se representações.
Ensaia-se tudo.
Menos aquilo que verdadeiramente importa: o reconhecimento do trabalho pedagógico realizado ao longo de todo o ano.
O professor deixa de ser educador.
Passa a ser fornecedor de animação.
Uma espécie de prestador de serviços recreativos que deve apresentar produto final para consumo familiar.
A contradição que ninguém quer ver
Talvez a maior ironia esteja precisamente aqui.
Durante todo o ano, a Escola promove estilos de vida saudáveis.
Ensina os malefícios do tabaco.
Alerta para os riscos do consumo excessivo de álcool.
Forma cidadãos conscientes, autónomos e responsáveis.
Depois chega a festa.
E, dentro ou junto ao espaço escolar, muitos adultos oferecem um espetáculo pedagógico memorável.
Copos na mão.
Cervejas sucessivas.
Nuvens de fumo.
E crianças a assistir.
A mensagem torna-se cristalina.
Aquilo que a Escola ensina durante meses pode ser convenientemente suspenso durante uma tarde/noite festiva.
Porque a festa parece, por vezes, funcionar como território livre de coerência.
Quem cuida de todos também merece ser cuidado
Existe ainda uma pergunta simples que raramente encontra resposta:
- Quem cuida das crianças durante estas iniciativas, quem cuida dessas pessoas?
Porque há festas onde não existe sequer a preocupação de disponibilizar uma garrafa de água aos professores.
Nem às assistentes operacionais.
Nem, em demasiados casos, aos próprios alunos.
É extraordinário.
Exige-se disponibilidade.
Exige-se presença.
Exige-se dedicação.
Exige-se sorriso.
Mas esquece-se o mínimo indispensável.
O cuidado.
O respeito.
A consideração.
Talvez esteja na hora de regressar ao essencial
As crianças não precisam de eventos gigantescos para serem felizes.
Não precisam de dias inteiros ocupados para se divertirem.
Não precisam de espetáculos produzidos à custa do desgaste de professores e assistentes operacionais.
Precisam de experiências significativas.
Precisam de coerência educativa.
Precisam de adultos que deem o exemplo.
E precisam de instituições que percebam uma verdade elementar: a Escola não existe para servir estratégias de promoção institucional, nem para funcionar como agência de animação.
Quando uma comunidade educativa esquece isto, corre o risco de transformar a celebração numa caricatura.
E uma caricatura, por mais colorida que seja, nunca substitui o respeito.
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