A escola não é um serviço de babysitting


Setembro chegou. E, com ele, regressam as mochilas, os livros, os cadernos, as listas de material, os horários, os professores, os alunos e as famílias que, durante algumas semanas, tentarão encontrar um equilíbrio entre a rotina, a pressa e o inesgotável desaparecimento de canetas, casacos e trabalhos de casa.

Regressa, sobretudo, uma palavra que devia estar no centro de todas as conversas sérias sobre o futuro: Escola.

Mas a escola não funciona apenas com edifícios, plataformas digitais, computadores, projetos vistosos e discursos políticos cuidadosamente preparados para o início do ano letivo. Tudo isso pode ajudar. Nada disso chega.

Uma escola precisa de autoridade. Precisa de respeito. Precisa de exigência, rigor, disciplina, compromisso e responsabilidade.

E precisa, acima de tudo, de adultos que não tenham vergonha de ser adultos.

Durante anos, fomos ouvindo que a exigência é suspeita, que corrigir pode ser traumático, que avaliar é quase uma perseguição pessoal e que impor regras revela uma perigosa inclinação autoritária. A escola foi sendo convidada a ensinar sem contrariar, a educar sem exigir, a disciplinar sem disciplinar e a avaliar sem ferir suscetibilidades.

O resultado está à vista de quem quiser olhar sem filtros pedagógicos.

Há alunos que chegam atrasados como se o horário fosse uma sugestão poética. Há quem apareça sem material como se uma mochila fosse um mero adereço de moda. Há quem interrompa, desrespeite, recuse trabalhar e, quando é chamado à atenção, se considere vítima de uma grave injustiça institucional.

E há pais que, em vez de perguntarem ao filho o que fez, começam por perguntar ao professor porque ousou intervir.

A escola não pode ser um serviço de babysitting. Não pode ser o lugar onde se deixam crianças e jovens de manhã, esperando que alguém resolva, até ao fim da tarde, tudo aquilo que a família decidiu não enfrentar.

A escola ensina. A família educa. E ambas têm de colaborar.

Isto não significa que a escola esteja dispensada de educar. Pelo contrário. Quem ensina ensina também convivência, respeito, escuta, responsabilidade, trabalho e cidadania. Mas a escola não pode substituir integralmente a família, nem a família pode demitir-se da sua função educativa e entregá-la, embrulhada numa mochila, à porta do estabelecimento de ensino.

Pontualidade importa.

Trazer o material importa.

Fazer os trabalhos de casa importa.

Ouvir importa.

Esperar pela vez importa.

Respeitar os colegas importa.

Respeitar os assistentes operacionais importa.

Respeitar os professores importa.

Aceitar que nem sempre temos razão importa.

Parece simples. É simples. Mas tornou-se quase revolucionário dizê-lo num tempo em que tantas regras são tratadas como ataques à liberdade individual.

Ora, liberdade sem responsabilidade é apenas capricho com boa publicidade.

Os professores não são inimigos dos alunos. Não são funcionários de entretenimento, distribuidores de boas notas ou especialistas em evitar conflitos. São profissionais com a responsabilidade exigente de ensinar, orientar, avaliar, corrigir e, muitas vezes, segurar a escola quando à volta tudo parece disposto a desvalorizar o seu trabalho.

E os assistentes operacionais, tantas vezes esquecidos nas grandes proclamações ministeriais, são igualmente fundamentais. São eles que abrem portas, acompanham recreios, acodem a situações difíceis, conhecem os corredores, os medos e as manhas dos alunos. Uma escola respeitável respeita todos os que a fazem funcionar.

Depois há o poder político, sempre muito disponível para falar de Educação. Falar é fácil. O difícil é praticar o respeito por quem está diariamente nas escolas.

Valorizar professores não é apenas discutir salários, embora a justiça remuneratória seja indispensável. É garantir condições de trabalho. É reduzir a burocracia inútil. É permitir que os docentes ensinem mais e preencham menos formulários. É proteger os profissionais quando são alvo de agressão, difamação ou desrespeito. É assegurar que a autoridade pedagógica não desaparece ao primeiro telefonema indignado de um encarregado de educação.

Uma escola sem autoridade é um edifício com horários.

Pode ter tecnologia, projetos, cartazes coloridos e reuniões intermináveis. Mas, se ninguém puder ensinar com tranquilidade e ninguém tiver o dever de aprender com responsabilidade, o que resta é uma encenação administrativa da Educação.

Exigir não é maltratar.

Corrigir não é humilhar.

Avaliar não é perseguir.

Disciplinar não é autoritarismo.

Dizer “não” continua a ser uma das formas mais honestas de educar. Dizer “assim não” é, muitas vezes, o primeiro passo para ajudar alguém a fazer melhor. Dizer “és capaz de mais” pode valer mais do que uma sucessão de elogios vazios.

Uma escola que não exige prepara mal.

E uma sociedade que prepara mal os seus jovens acaba inevitavelmente por pagar a fatura. Paga-a na falta de competências, na incapacidade de trabalhar com os outros, na fragilidade perante a frustração, no desprezo pelas regras e na dificuldade de assumir consequências.

Setembro não é apenas o regresso às aulas. Devia ser também o regresso a uma ideia simples e decisiva: educar dá trabalho. Ensinar exige autoridade. Aprender exige esforço.

Que este ano letivo devolva à Escola o respeito que ela nunca deveria ter perdido.

E que devolva aos professores, aos assistentes operacionais e às famílias uma certeza essencial: sem compromisso não há aprendizagem; sem exigência não há excelência; sem responsabilidade não há Educação.

E sem Educação, por mais promessas que se façam, não há futuro.

Comentários