Crianças de aviário, adultos de algodão: a febre de uma geração protegida até ao vazio

Há uma geração a crescer sob redoma, e depois admiram-se de ela tropeçar na primeira pedra. Protege-se tanto, blinda-se tanto, esteriliza-se tanto, que a vida acaba reduzida a um corredor sem arestas, sem risco, sem atrito, sem surpresa. E, no entanto, viver sempre foi isso mesmo: experimentar o imprevisto, falhar, recomeçar, cair e levantar, com as roupas sujas e a consciência desperta.

A infância de hoje, demasiado vigiada, demasiado mediada, demasiado entretida por ecrãs, parece muitas vezes uma infância de substituição. Brinca-se menos com a rua e mais com o brilho azul da consola, do telemóvel, da máquina que promete mundos e entrega dependência. O problema não é a tecnologia. O problema é quando ela ocupa o lugar do erro, da brincadeira livre, do joelho esfolado, da pequena aventura que ensina mais do que mil sermões bem educados.

Depois, crescemos espantados com jovens incapazes de tolerar frustração, de suportar silêncio, de lidar com a demora. Não é defeito de caráter. É, muitas vezes, consequência de uma pedagogia do excesso de proteção. Quem nunca foi chamado a resolver um problema real tende a confundir conforto com felicidade. E isso, convenhamos, é uma armadilha com verniz moderno.

Educar não é embrulhar a criança em algodão e entregar-lhe um futuro em modo assistido. Educar é preparar para a dureza do mundo, sem lhe roubar a alegria de o descobrir. É dar afeto, sim, mas também autonomia. É ensinar limites, porque sem limites não há crescimento. Há apenas prolongamento da dependência. E uma sociedade que infantiliza as crianças acaba, com elegante ironia, por produzir adultos frágeis, ansiosos e sem musculatura interior.

A verdade é simples, ainda que doa: não se aprende a viver sem viver. E viver, esse verbo tão maltratado, inclui risco, escolha, perda, resistência e coragem. Tudo o resto é entretenimento com pretensões pedagógicas.

Comentários