Domingo ao fim da tarde: pedagogia de urgência

Quando o sistema pede calma e entrega ansiedade

Há mensagens que chegam com atraso. E depois há mensagens que chegam no momento certo para provar que o tempo, nas escolas, é uma abstração perigosa.

Domingo, fim de tarde. Um e-mail. Um relatório. Um prazo. Segunda-feira.

Tudo normal, dir-me-ão. Não é.

A escola em modo “última hora”

Seis meses de trabalho. Seis. Uma travessia longa, de observação, aplicação de instrumentos, análise, redação. Tudo legítimo, tudo necessário. Mas eis que, no derradeiro instante, o sistema decide brincar ao sprint final.

Quem trabalha na Escola conhece este padrão, adiar, acumular, resolver em cima do limite. O problema não é apenas a ineficiência. É o efeito colateral, a transferência do stress para o elo mais exposto, o professor titular.

O e-mail não chegou apenas. Caiu.

E com ele, uma lista invisível de tarefas, preencher formulários, mobilizar encarregados de educação, recolher assinaturas, submeter processos. Tudo isto, note-se, num dia em que a escola celebrava a infância. Ironia fina.

O almoço que ficou por acontecer

Há sacrifícios que não aparecem nos relatórios. Não têm anexo. Não entram em atas.

Nesse dia, o almoço não aconteceu.

Houve crianças, atividades, sorrisos. Houve logística, segurança, acompanhamento. E, pelo meio, um/a professor/a a tentar cumprir aquilo que deveria ter sido planeado com margem, tempo e respeito institucional.

Porque é disso que falamos, de respeito pelo tempo do outro.

Não é uma questão de boa vontade, é uma questão de organização. E a organização, quando falha, transforma profissionais diligentes em gestores de emergência.

A pedagogia não é urgente, é exigente

Há uma confusão recorrente entre urgência e exigência.

A pedagogia exige tempo. Exige reflexão. Exige articulação. Não vive bem com sobressaltos administrativos, muito menos com decisões tomadas à beira do prazo.

Quando um relatório chega no limite, a mensagem implícita é clara, “desenrasque-se”.

Mas a Escola não devia funcionar por desenrasque. Devia funcionar por método.

Como nos lembra Perrenoud, a profissionalidade docente constrói-se na antecipação e na regulação, não na reação permanente ao imprevisto, sob pena de se degradar a qualidade da ação educativa.
(Perrenoud, Philippe, Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza, Artmed, 2001)

Também Hargreaves alerta para a erosão do tempo docente, quando este é capturado por exigências administrativas que comprimem o espaço da decisão pedagógica.
(Hargreaves, Andy, Changing Teachers, Changing Times, Teachers College Press, 1994)

Uma questão de cultura organizacional

Não se trata de apontar dedos individuais. Trata-se de reconhecer padrões.

Quando o extraordinário se torna rotina, a organização precisa de se rever. Uma cultura de última hora não é sustentável, nem justa. Penaliza os mais comprometidos, normaliza o improviso, fragiliza a qualidade.

E, no fim, quem paga?

Os alunos. Sempre.

Porque cada minuto gasto a correr atrás do prazo é um minuto roubado àquilo que verdadeiramente importa, ensinar, acompanhar, cuidar.

Conclusão, sem dramatismo, mas com memória

O processo foi submetido. O dever cumprido.

Mas convém não normalizar o que não é normal.

A Escola merece melhor. Os profissionais merecem melhor. E, sobretudo, as crianças merecem uma escola que funcione com tempo, com método e com respeito.

Domingo, ao fim da tarde, pode ser apenas uma hora do dia.

Ou pode ser o retrato de um sistema que ainda não aprendeu a respeitar o seu próprio calendário.

Comentários