Educar sem cuidar é crueldade institucional

Educar não pode ser sinónimo de adoecer

A psiquiatra e professora universitária Elisabete Castelon Konkiewitz voltou a chamar a atenção para uma realidade que muitos preferem ignorar, a Escola tem-se tornado, cada vez mais, um espaço de exigência extrema para quem nela trabalha e convive. E o mais inquietante é que já quase ninguém se surpreende com isso, como se o desgaste humano fosse uma espécie de custo natural da profissão. Não é. Nunca foi.

Os fatores são conhecidos, repetem-se com teimosa regularidade e, ainda assim, continuam a ser tratados com a ligeireza de quem comenta o tempo: o aumento das situações de conflito, a cobrança por resultados, o acumular de funções e as tensões constantes entre escolas, famílias e educadores. Tudo isto compõe uma espécie de equação perversa, em que se pede mais, se dá menos e se espera que os profissionais façam o impossível com um sorriso administrativo estampado no rosto.

A verdade é simples e dura: uma Escola emocionalmente exausta não é uma Escola forte. É uma Escola em sofrimento. Professores e assistentes operacionais, tantas vezes invisíveis no discurso público, vivem sob pressão contínua, com responsabilidades crescentes, recursos insuficientes e uma carga emocional que raramente entra nas estatísticas com a devida gravidade. Depois admiram-se por surgirem ansiedade, stress, esgotamento profissional e afastamentos por questões de saúde. Como se o corpo e a mente fossem máquinas de segunda categoria, obrigadas a aguentar o que a organização se recusa a resolver.

Há aqui uma ironia cruel: exige-se à Escola que eduque para a cidadania, para o respeito, para a empatia e para o equilíbrio, mas muitas vezes o próprio ambiente escolar desmente, na prática, aquilo que proclama no papel. Não se constrói humanidade num espaço onde os cuidadores andam permanentemente no limite. Não se pede serenidade a quem vive em sobressalto. Não se fala de bem-estar com credibilidade enquanto se normaliza o cansaço crónico de quem sustenta a vida escolar todos os dias.

A própria Elisabete Castelon Konkiewitz sublinha que esta realidade exige resposta coletiva. E tem razão. O problema não se resolve com frases simpáticas, campanhas avulsas ou discursos redondos sobre valorização. Resolve-se com condições concretas, com diálogo sério, com respeito efetivo e com políticas que ponham a saúde mental no centro das decisões. Porque a Escola não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos. É um lugar de convivência humana, e convivência sem saúde mental é apenas sobrevivência mal disfarçada.

É urgente dizer isto sem rodeios: a saúde mental dos professores e dos assistentes operacionais deve ser uma prioridade imediata. Não daqui a uns anos, não quando houver orçamento, não quando sobrar tempo, não quando o problema já tiver feito estragos irreparáveis. Urgente significa agora. Tudo o resto é adiar o óbvio e fingir que o preço não será pago.

Se a Educação quer continuar a merecer esse nome, então tem de começar por cuidar de quem a torna possível. Porque não há Escola digna, nem futuro sustentável, quando os seus profissionais são empurrados para a exaustão como se isso fosse normal. E não é. É um alerta. E já vai tarde.

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