O ecrã do desrespeito: a ditadura do anúncio e o caos da grelha

Houve um tempo em que a televisão aberta era um ponto de encontro, um ritual com hora marcada onde o telespectador sabia exatamente com o que contar. Hoje, ligar o televisor transformou-se num exercício de masoquismo e paciência elementar. As estações televisivas, numa vertigem comercial que roça a ostensiva falta de vergonha, decidiram que o público já não é um conjunto de cidadãos a fidelizar, mas sim gado televisivo para expor a blocos publicitários intermináveis.

Os intervalos comerciais deixaram de ser pausas. Passaram a ser o prato principal, interrompido, de quando em vez, por fatias cada vez mais magras de programação. Assiste-se a um filme ou a uma reportagem como quem pede um favor, tolerando vinte minutos de anúncios de detergentes e seguros de saúde para conseguir ver dez minutos de conteúdo. É a vitória do mercantilismo rasteiro sobre o respeito por quem está sentado no sofá.

O baile das cadeiras e o desprezo pelo telespectador

Se o abuso publicitário esgota a paciência, a volatilidade das grelhas de programação insulta a inteligência do público. Mudar o horário de uma série a meio da temporada, empurrar um programa cultural para as calendas da madrugada ou cancelar um formato sem aviso prévio tornaram-se práticas correntes. Os programadores de vão de escada gerem os canais como quem joga nos casinos, movendo peças ao sabor de flutuações de audiência ao minuto, ignorando por completo a capacidade de fidelizar públicos.

Esta política do "hoje dá a esta hora, amanhã logo se vê" destrói qualquer hipótese de cumplicidade com o espectador. Exige-se fidelidade a quem é tratado com o mais absoluto desdém. As direções de programas parecem esquecer-se de que, na era do streaming e do botão de desligar, o público não está acorrentado ao ecrã. Quando a televisão abdica da sua palavra e da sua própria organização, abdica também do direito à relevância. O que resta é um carrossel ruidoso de anúncios, onde a única certeza é que o espectador conta cada vez menos.

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