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A imagem expõe, com a crueza cirúrgica de um raio-X, a verdade mais democrática e inevitável da nossa existência. Despidos de cargos, de títulos académicos, de marcas de automóveis ou de contas bancárias, restam apenas ossos. Ali, naquela perspectiva ortopédica do fim, somos todos rigorosamente iguais. Aqueles que carregam a urna e aquele que nela repousa partilham exatamente da mesma estrutura, do mesmo cálcio, do mesmo destino.
É uma imagem que incomoda porque arranca as máscaras com que nos passeamos pelo mundo. A nossa vaidade quotidiana, os pequenos poderes de trazer por casa e as questiúnculas egoístas que alimentamos com tanto desvelo são reduzidos ao ridículo. No final, o que verdadeiramente distingue o esqueleto que vai deitado dos esqueletos que o transportam às costas?
A flor entre os ossos
Há um detalhe na imagem que resgata esta perspectiva do niilismo absoluto: a flor que repousa sobre as pernas do esqueleto central. Num cenário dominado pela morte e pela rigidez mineral, aquela planta é o único vestígio de delicadeza, de afeto e de memória.
A flor não foi conquistada pelo morto. Foi-lhe dada. Ela representa o amor, o respeito e a marca humana que deixamos nos outros enquanto a nossa carne ainda cobre a ossatura. É o símbolo de que a única riqueza que resiste ao raio-X da eternidade é o impacto intangível que criamos na vida de quem nos rodeia.
Se a morte nos iguala na matéria, é a forma como vivemos que nos diferencia no legado. O caixão vai fechar para todos, sem exceção. A grande questão que a imagem nos coloca não é sobre o fim, mas sobre o agora: que memórias estamos a semear nas mãos de quem, um dia, nos transportará até à terra?
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