Perfeição? Deus nos livre!

Há frases que envelhecem mal. Há outras que melhoram com o tempo, como certos vinhos e determinadas rabugices.

Esta proclama a fórmula da perfeição: beleza, inteligência e mau feitio.

Confesso que a ideia tem o seu encanto. Afinal, a humanidade já está suficientemente povoada de pessoas bonitas sem nada para dizer e de pessoas inteligentes que pedem desculpa por existirem. O problema é que o chamado "mau feitio" tem sido, ao longo dos tempos, injustamente confundido com algumas virtudes raras.

Muitas das pessoas que mudaram o mundo foram acusadas de ter mau feitio. Não porque fossem desagradáveis, mas porque tinham o irritante hábito de dizer o que pensavam. Não porque fossem conflituosas, mas porque recusavam alinhar na procissão dos conformados.

Na verdade, a sociedade contemporânea aprecia a inteligência desde que seja discreta. Tolera a beleza desde que seja fotogénica. Mas o espírito crítico? Esse só é bem-vindo quando critica os outros.

Vivemos a era da simpatia obrigatória. Nas empresas, na política, nas escolas e nas redes sociais, valoriza-se cada vez mais a arte de parecer agradável. O que se pensa tornou-se menos importante do que a forma como se sorri enquanto se diz.

Por isso, qualquer pessoa que faça perguntas incómodas rapidamente recebe um diagnóstico social instantâneo:
"Tem mau feitio."
Quem recusa a mediocridade tem mau feitio.

Quem não suporta incompetência tem mau feitio.

Quem não aceita mentiras convenientes tem mau feitio.

Quem exige qualidade quando todos se contentam com pouco tem péssimo feitio.

E talvez seja precisamente por isso que essas pessoas sejam tão necessárias.

Naturalmente, existe o verdadeiro mau feitio: o da arrogância, da indelicadeza rude e da falta de respeito. Esse não tem qualquer romantismo. Mas há outro, muito mais interessante: o mau feitio dos inconformados. O dos que não conseguem ficar calados perante a estupidez instalada. O dos que insistem em pensar quando todos os outros preferem repetir.

Esses são frequentemente tratados como problema.

Mais tarde, descobrimos que eram solução.

Talvez a perfeição não esteja na beleza nem na inteligência.

Talvez esteja na maravilhosa capacidade de continuar a ser genuíno num mundo cada vez mais povoado por pessoas programadas para agradar.

E isso, convenhamos, costuma ser confundido com mau feitio.

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