A flor escondida nas costas

👉Foto: Ralph Gibson

A fotografia de Ralph Gibson mostra uma figura de negro, imóvel, quase austera. À primeira vista, nada se destaca. Mas basta demorar o olhar mais alguns segundos para descobrir o detalhe que transforma a imagem: uma flor branca, delicadamente escondida atrás das costas.

E talvez seja exatamente assim que o bem acontece.

Sem palco. Sem testemunhas. Sem necessidade de reconhecimento.

Mario Quintana escreveu que não há bons nem maus, apenas pessoas que sentem prazer em fazer o bem e pessoas que sentem prazer em fazer o mal. A imagem parece dialogar com essa ideia. A flor não está à vista de todos. Não foi exibida. Não procura aplauso. Existe apenas porque alguém decidiu carregá-la.

Vivemos num tempo em que quase tudo se publica, se fotografa e se partilha. O gesto só parece ter valor quando é visto. A bondade, muitas vezes, passou a exigir plateia.

Mas os atos mais nobres continuam a nascer na discrição.

São as flores que levamos escondidas dentro de nós.

A palavra que não humilha.

O silêncio que respeita.

A ajuda que ninguém saberá quem deu.

A presença que não procura recompensa.

Talvez o verdadeiro caráter de uma pessoa não esteja naquilo que mostra ao mundo, mas naquilo que traz escondido atrás das costas. Porque é aí, longe dos olhares, que habitam as intenções. E as intenções são as sementes de tudo.

No final, a vida acaba por revelar o que cada um cultiva em segredo.

Uns distribuem espinhos.

Outros guardam flores.

E essa escolha, repetida dia após dia, acaba por dizer muito mais sobre nós do que todas as palavras que pronunciamos.
"No fundo, não há bons nem maus. Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem e os que sentem prazer em fazer o mal. Tudo é volúpia..."

Mario Quintana

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