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Há quem pense que as redes sociais inventaram o botão deixar de seguir, o bloquear e o famoso eliminar contacto.
Puro engano.
A fotografia prova que os nossos antepassados já dominavam a arte do afastamento interpessoal muito antes da chegada da internet. A diferença é que, em 1859, não havia tecnologia. Havia criatividade.
Na imagem, cinco pessoas posam serenamente para a posteridade. Ou melhor, quatro posam. A quinta parece ter cometido o gravíssimo crime de desagradar ao proprietário da fotografia. Resultado: a cabeça foi vigorosamente riscada até desaparecer do mapa visual.
Sem notificações.
Sem mensagens passivo-agressivas.
Sem publicação de indiretas.
Sem necessidade de escrever: "Algumas pessoas revelam quem realmente são..."
Uma simples raspadela fotográfica resolveu o assunto.
E que elegância! Que objetividade! Que eficiência administrativa!
Nos dias de hoje, quando uma amizade termina, há todo um protocolo digital. Deixa-se de seguir. Bloqueia-se. Desbloqueia-se para espreitar. Volta-se a bloquear. Partilha-se uma frase de Paulo Coelho. Publica-se uma fotografia com a legenda: "Gratidão por tudo o que aprendi."
Em 1859 não.
Em 1859 alguém olhava para a fotografia e pensava:
"Esta pessoa está morta para mim."
E passava imediatamente à fase prática.
Lixa, faca, tesoura ou qualquer instrumento da época, o equivalente analógico do botão "remover dos amigos".
O mais extraordinário é que os restantes elementos do retrato parecem aceitar a situação com uma serenidade invejável. Nada de escândalos. Nada de debates. Nada de especialistas em desenvolvimento pessoal.
Apenas a constatação silenciosa de que alguém tinha sido oficialmente promovido à categoria de fantasma.
No fundo, os tempos mudam, mas a natureza humana continua espantosamente igual.
Mudaram as ferramentas.
Mudaram os ecrãs.
Mudaram os algoritmos.
Mas a antiga vontade de apagar certas pessoas da nossa vida continua tão viva como naquela fotografia.
A diferença é que os nossos antepassados tinham uma qualidade que hoje escasseia: quando decidiam cancelar alguém, ao menos tinham o trabalho de o fazer à mão.
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