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Há uma estranha sinceridade na noite.
Durante o dia, ocupamo-nos. Corremos. Falamos. Trabalhamos. Fingimos, até, que determinadas feridas já cicatrizaram. Mas chega o crepúsculo e tudo muda. As vozes do mundo diminuem. Os compromissos recolhem-se. E ficamos entregues à companhia mais exigente de todas: nós próprios.A imagem mostra uma figura solitária sentada sobre um ramo suspenso entre a terra e o céu. Por baixo, o abismo. Por cima, um manto de estrelas. É uma fotografia que parece ter sido arrancada a um pensamento de Florbela Espanca.
Há noites assim.
Noites em que nos sentamos na varanda da alma e observamos, em silêncio, a longa procissão das nossas memórias. Passam os sonhos que não chegaram a acontecer. As palavras que ficaram por dizer. As pessoas que a vida levou para longe. As ausências que continuam a sentar-se ao nosso lado, mesmo quando julgamos tê-las esquecido.
Florbela conhecia bem essa hora. Chamava-lhe o seu calvário. A hora em que as dores antigas regressavam devagarinho, sem pedir licença. E talvez todos nós tenhamos uma hora parecida. Um instante do dia em que as máscaras caem e os pensamentos deixam de obedecer às regras da razão.
Mas há uma beleza secreta nessa escuridão.
As estrelas só se revelam quando a noite chega.
Talvez as dores também tenham algo para nos ensinar quando deixamos de fugir delas.
Elas recordam-nos que amámos.
Que acreditámos.
Que vivemos.
Que houve caminhos que valeram a pena, mesmo quando terminaram em desilusão.
Por isso, quando a noite se sentar ao seu lado, não a enxote de imediato. Escute-a. Olhe para o céu. Respire fundo.
Porque nem todos os desalentos erguem cruzes.
Alguns constroem asas.
E são essas asas invisíveis, moldadas pelas lágrimas, pelas perdas e pelas cicatrizes, que um dia nos permitem alcançar a luz que julgávamos perdida.
«Este anoitecer vai ser divino, como deves calcular. Foi sempre a minha hora de tragédia, a hora dos meus nervos dolorosos, dos meus pensamentos doidos; foi sempre, a noitinha, o meu grande calvário (...).»
Florbela Espanca
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