Caso CASA PIA

 


As palavras que sempre direi

 

Ainda o caso “CASA PIA”. Nos últimos tempos parece ter-se estancado a hemorragia de desenvolvimentos absolutamente desconcertantes num caso que, confirmando suspeitas antigas, ameaça constituir-se paradigma para ulteriores avaliações. Na verdade, e para os que nem sempre dispensaram grande atenção às coisas da Justiça em Portugal, esta é a grande oportunidade para grandes e pequenos, fortes e fracos, ricos e pobres se decidirem a priorizar o aperfeiçoamento desta poderosa mas pesada máquina que assegura, nesta fértil arena terrena, o julgamento dos homens pelo Homem.

Em rigor, a Justiça estará a funcionar. Infelizmente, a constatação do seu funcionamento não será garantia suficiente do seu acerto. Na ignorância do que será o quotidiano processual nos tribunais portugueses, parte considerável da opinião pública tenderá a pensar que “vamos de mal a pior”. Eu, por mim, estarei tentado a presumir que “esta” Justiça, alvo e objecto de escrutínio diário, será mesmo a Justiça que habitualmente se serve numa qualquer sala de audiências perto de si. Daí que todo este processo deva servir para formar judicialmente o cidadão comum, usualmente avesso às complexidades, especificidades e formalidades de um sistema que regula, garante e vigia a SEGURANÇA e a LIBERDADE dos cidadãos num estado democrático.

Não aceitando a presunção de me achar competente para avaliar, no concreto, a conduta dos intervenientes, que decerto farão seu melhor em defesa do seu direito ao sucesso, afigura-se-me ainda assim incontroversa a excessiva verbalização a que muitos parecem ter sucumbido. Há muita gente a falar de mais. Fala o juiz, o advogado, a Provedora, o António das Gaiolas, o Pedopsiquiatra, o jornalista das 7, a florista, o ex-aluno, o Bastonário, o Zeca arrumador, o deputado, o Bispo, o Zézé Camarinha, a amiga do arguido e, no meio de tanta faladura, só apetece decretar, com efeitos imediatos e sem possibilidade de recurso, o “estado da Lei da Rolha”!

Não é que esteja diminuída a liberdade de expressão do contribuinte eleitor ou que a pedofilia, enquanto fenómeno repugnantemente grave, não mereça diversificadas e autorizadas abordagens. Não é nada disso. O que me impressiona negativamente é que muitas dessas personalidades, que parecem aviltar, com penosa leviandade, o Segredo de Justiça, se permitam transformar algo de muito sério num qualquer “reality show”, que se serve sempre às oito. De nada vale vir acenar com os “votos de serenidade e confiança na Justiça” ou garantir que “não comentarei factos concretos e exclusivos deste processo” para logo a seguir, de modo sub-reptício, afirmar as mais provocatórias aleivosias. A continuar assim, ficaremos na história da cultura judicial ocidental por ousarmos conspurcar um ficheiro de excepcional relevância pública numa deplorável película de série B.

Porventura, esta fase de explosão mediática, que parece assolar o país de norte a sul, ajudará a contextualizar esta atmosfera de desmando generalizado e continuado. Gente supostamente bem informada e inteligente aparenta não ter ainda acomodado realidades factuais elementares. Esta é a época da neo-televisão, caracterizada pela mistura de géneros, onde a informação é posta em cena como se se tratasse de um espectáculo, imperando a máxima de que “o nosso jornal não poderá nunca terminar antes do de outro canal”. Reforçando-se as dimensões narrativas e dramáticas do caudal noticioso, o que importa é, num tempo breve, dar-se o máximo de notícias. Mas como o tempo limitado tem tendência a contribuir para o apagamento das problematizações e para a simplificação, os entrevistados, ainda que imbuídos das melhores intenções, são autenticamente cilindrados por entrevistadores sedentos de sangue, que não poupam os melhores professores universitários. De nada vale ir à televisão com o angélico propósito de esclarecer ou de (in)formar. Fiquem em casa. Aprendam com as mulheres na cozinha e ajudem o pequeno nos trabalhos de casa. Se saírem, só farão asneira. Calem-se. Não permitam que os “media” determinem a maneira de pensar. Eles nem sempre buscam a explicação. Preferem a narração dramatizada ao esclarecimento.

Nesta lógica de comunicação em “palimpsesto”, que parece facilitar a assimilação e em razão do exposto, as palavras que sempre vos direi serão: recato, comedimento, sensatez e exigência.

 

José Manuel Alho

 

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