Coxos em fins de Agosto

 


Os coxos nunca


dançam sozinhos


  

Mais uma manhã de domingo. Agosto está a ofegar os derradeiros suspiros, como quem anuncia uma depressão sazonal, a confirmar, para tristeza dos pragmáticos, que o Homem não foi feito nem pensado para trabalhar. Confortado pela literatura desportiva, a sancionar mais um triunfo dos lagartos, disponho-me, com o descomprometimento de umas exóticas bermudas, a sentar-me numas daquelas esplanadas que me cospem para a solidão dos PA (Pensantes Anónimos). Formalizado o pedido, ao jeito dos que insinuam a promíscua veneração de um afilhado em tempo de Páscoa, anseio a confirmação, sob a forma de um café cheio com uma casquinha de limão – adereço incontornável para derrotar a dor de cabeça imposta pela angústia inerente à véspera de qualquer jogo disputado pelo glorioso SLB – de um ritual exclusivamente “alhesco”. Em bom rigor, já “estava em estágio”.

Senhor da minha pose de intelectual domingueiro, eis-me importunado por um SS (Sofredor Solidário), dos tais que, sendo colega de profissão, se distingue pela pertinácia dos que ousam saber “mamar” por lograrem “chorar” com inigualável sentido de oportunidade. Como eu, professor. Daqueles que supostamente usufruíram de formação académica superior para promoverem e divulgarem a Matemática. Em fins de Agosto, e apesar de ser, como o “je”, profissional dos quadros, não sabe onde irá trabalhar daqui a uns dias – inícios de Setembro. É a vida. Estamos em Portugal. Nada é como devia ser.

Como quem “bate” um ás de trunfo na decisão de uma discutida “suecada”, atira para a outrora serena e neutra mesa do café um jornal diário ostentando em primeira página o óbvio entre parceiros de missão razoavelmente informados: “Esgotados Antes do Começo das Aulas – com o atraso das colocações e sem férias, 10% dos professores chegam às escolas a precisar de baixa.”

“Já visto isto? Que país é este?!” – disparou o inconformado colega, cruzando com determinada veemência o seu peludo par de pernas, envergando um par de peúgas em homenagem ás homéricas desventuras d’Os Simpsons. Ainda que sem o charme e a sedução de movimentos protagonizados pelas enleantes mas clássicas sandálias de “moi même”, retorqui: “tem calma. O pior ainda está para vir…” Nas páginas interiores, o periódico dava conta de (mais) receios na divulgação das listas definitivas, de um início de ano lectivo a preocupar grandemente os Pais e Encarregados de Educação e, finalmente, dos estragos na saúde mental dos docentes. A jornalista – que deve ter algum familiar na embrulhada… – dignou-se consultar um neuropsicólogo que, do alto da sua douta sabedoria, lembrava que os professores podem, com toda esta trapalhada que se arrasta há demasiados meses, padecer de “uma forma muito grave de esgotamento limite”, algo que os pode “incapacitar para a prática do ensino por um período máximo de dois anos”. O especialista, imagine-se, do Instituto de Inteligência no Porto consultado pelo jornal alertava para o facto de “o atraso na colocação de professores constituir um factor muito negativo, fazendo com que muitos docentes padeçam de ansiedade exógena, uma forma de agressão resultante dos problemas da vida”. Em complemento, a peça jornalística, que definiu clinicamente o impressivo mal de saúde como “burn out”, prevenia para a forte possibilidade de, em consequência desse esgotamento, os docentes poderem manifestar desconforto e perturbações de humor”. Enfim, nada que os alunos já não tenham experienciado em devido tempo.

“Finalmente, alguém se lembrou que somos gente! Só pensam nos pais e nas mamãs dos meninos que só os aturam no Natal e na Páscoa… ” – satirizou o caro professor de matemática. Eu, que só reclamava um amanhecer globalmente vulgar, estava agora instigado também a pensar no meu futuro profissional imediato porque, sendo professor, sou igualmente casado com… uma professora. Curiosamente, também somos pais. Isto é, temos uma filha. Azares…

Já sentado a meu lado, na mesa onde esboço possíveis onzes iniciais do Benfica de acordo com os adversários, o indignado amigo conseguira inquietar-me. Até ele chegar, por opção, decidira concentrar-me nos proveitos das possíveis opções tácticas de Quique para o jogo na Luz com o FCP: Cardoso ou Nuno Gomes ou até Aimar; Moreira ou Quim; Leo ou Maxi, Rúben Amorim  com ou sem Yebda, em resumo, uma parafernália de interrogações que importaria digerir com sensata racionalidade.

Desconfortavelmente rendido, ao ponto de não sentir necessidade de ripostar, engelhei meu convencido queixo como que sancionando o alcance das tiradas do dilecto colega. Inesperadamente, opta, irritado, por deixar-me novamente só. “Estou farto desta profissão. Ninguém nos respeita! Vou ligar-me à Internet à espera de novas…”

Quando discernia os primeiros passos, virou-se para trás e, já com o diário esmagado por uma mão vigorosamente fechada, surpreende-me com um pensamento que sempre esperaria de um filósofo, mas nunca de um matemático: “nós, os professores, estamos sempre entregues à nossa sorte. Não temos muletas. Não conhecemos o amparo dos que nos deviam proteger. Preferem sempre empurrar-nos para este circo como quem atira para a arena um coxo, esperando que interprete, com irrepreensível encanto, a ópera “Philoméla”, sem nunca antes sequer ter percebido a simplicidade das modinhas do Quim Barreiros. E mesmo assim, temos de dançar…”

Em Portugal, os coxos nunca dançam sozinhos, previno eu.

José Manuel Alho

Comentários