Estive para morrer...

 


HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE NOS PEGA AO COLO

 

 

“Uma noite, eu tive um sonho...

Sonhei que andava a passear na praia com o Senhor, e, no firmamento, passavam cenas da minha vida. Após cada cena que passava, percebi que ficavam dois pares de pegadas na areia: um era o meu e o outro era o do Senhor.

Quando a última cena da minha vida passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia, e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso aborreceu-me deveras e perguntei então ao Senhor:

- Senhor, Tu disseste-me que, uma vez que resolvi seguir-Te, Tu andarias sempre comigo, em todos os caminhos. Contudo, notei que durante as maiores tribulações do meu viver, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque é que, nas horas em que eu mais necessitava de Ti, Tu me deixaste sozinho.

O Senhor respondeu-me:

- Meu querido filho, jamais te deixaria nas horas da prova e do sofrimento. Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi exactamente aí que peguei em ti ao colo.”

 

 

 

Zumbido no ouvido direito. O médico otorrino prescreve, num fim de tarde lotado de consultas, a realização de uma TAC. Expectativa e ansiedade que dura um fim-de-semana. Não gosto de médicos, exames, picadelas e outras que tais. Segunda-feira, após três horas de aulas, saio da escola rumo a um centro da especialidade. Cinquenta minutos depois, o medo parecia ter-se esfumado. O exame estava feito. Portei-me bem. O(a) médico(a) sai da sua cabine onde havia monitorizado a TAC e, acompanhado(a) pelo técnico – ambos com cara de caso – atira “encontrámos qualquer coisa na sua cabeça...”. Retorqui, “mas o quê?!!”. Sem mais, indaga “quando tem a próxima consulta? (...) Só daqui a vinte dias...”, balbucia com notória preocupação, rematando por fim “bem, não espere mais. O senhor vai precisar de ser acompanhado...”

As poucas explicações complementares davam conta da gravidade da situação. Fiquei branco de pânico. O sangue pareceu ter-se congelado e desejei, sem sucesso, estar a viver um pesadelo. É-me dito para ter cuidado com espirros, correntes de ar e mudanças súbitas de humor. Percebo, com horror, que posso ter uma bomba relógio no cérebro. Pressinto que posso morrer em breve. As horas que se seguem confirmam que morri e ressuscitei várias vezes. Choro compulsivamente. Pego no carro. Ando sem destino, incapaz de conter as lágrimas que escorrem hemorragicamente e aquela sensação de que o mundo se havia preparado para me cair em cima. Não quero que me vejam assim. Detesto que tenham pena de mim ou que me tratem como um coitadinho. Quero viver! Tenho uma filha, quero vê-la crescer, levá-la ao altar. Tenho uma mulher que me dá o ser. Tenho ambições. Afinal, ainda há pouco fiz trinta anos! Porquê eu?!

Sei agora que nestas coisas o que custa é informar a família. Choque. Incredulidade. Não quero ver mais ninguém. Quero deitar-me mas antes, e como sempre, um beijinho de boas noites à Beatriz e, pela primeira vez, penso poder estar a despedir-me dela. Não quero adormecer. Ainda vou morrer sem dar por isso. Meu Deus, mas o que me aconteceu ?! Eu, que nem sintomas tenho! Era só um zumbido...

Acordar deixou de ser uma rotina, uma normalidade. Vestir-me, dar aulas, escrever, comprar o jornal ou ir às compras deixou de ter graça. Como era bom antes. “Antes”, quando não sabia “disto” e me limitava a queixar-me de coisas sem importância. Como me desgastei sem necessidade! Recorro a Deus. Falo-Lhe do que sinto, lamento-me mas não quero vitimizar-me. Só quero viver. Peço-Lhe. Rezo pedindo-Lhe que me acalme, que me ponha a mão no ombro e me diga para não ter medo. Revejo a minha vida. Critico-me. Sou um oportunista. Voltei a falar-Te porque estou em necessidade. Onde tenho estado? Porque razão Haverias de dar-me ouvidos?! Se usares de reciprocidade... Mas eu tenho fé um Ti. Fé que me Vais valer, ainda que tudo pareça não ter remédio ou solução. Nunca me deixaste ficar mal. Nunca deixei de ser Teu filho. Senti-me sempre Teu filho. Tu sabe-lo.

Sucedem-se desenvolvimentos vários, cujo pormenor não cabe aqui enunciar. Mas nas “pequenas grandes” coisas vejo a Sua mão. Desejo e acontece. Peço e sou atendido. O desgaste emocional é incomensurável, inenarrável. Consigo finalmente emagrecer uns quilitos. Não consigo estudar, agora que estava a começar a minha especialização. Não ia valer a pena. Preciso de ter a cabeça limpa. Primeiro sinal: uma prestigiada equipa de neurocirurgiões vê a TAC e contesta o conteúdo do seu relatório. Parece que o relatado não corresponde à imageologia ínsita no exame. Faço Ressonância Magnética. Boas notícias. A “coisa” afinal é congénita. Vou falar com o chefe de equipa. “Caro amigo, o prognóstico é bom. Temos 95% de certeza. Faltam 5%...”

Não. Não quero ser internado. Tenho pavor, na dimensão mais primária e irracional. Sou mesmo parvo! Deixa-te de lamúrias. “O meu amigo vai ter de fazer uma angiografia cerebral digital. Vai ver que não custa nada.” Ainda que muito reduzido, o risco de embolia existe. Sou internado. Entro no bloco e vejo um paciente, de cabeça rapada, a ser conduzido ao bloco operatório. A mulher, nervosa, agarra-lhe a, mão e afiança “até já”. Fiquei indignado comigo mesmo. Não tenho o direito de me sentir assim. A angiografia consistirá em introduzir-me, na virilha, uma “mangueirinha” que, com uma “cápsula” numa das extremidades, chegará ao cérebro e então esguichará o famoso líquido de contraste. Sou rapado. (Pensar eu que só o frio explicava o “encolhimento”.) Entro na sala de radiologia. Perece uma nave espacial. Há monitores por tudo que é sítio. Sete pessoas vestidas de verde entabulam conversação comigo. São simpáticos. O aparelho de som é ligado. Música clássica. Sinto-me “apagar”. Hora e meia depois estou de regresso ao quarto. Durante seis horas não poderei caminhar.

O médico entra de rompante. Confirma-se o melhor diagnóstico. Nada de especial. Apenas uma “malformação venosa na fossa cerebulosa esquerda” ou uma “anomalia de desenvolvimento”, uma “tele angiectasia absolutamente inocente”. Um “defeito de fabrico”. Sem significado. Tudo enfim acabará semanas depois com a formalização da alta da Consulta Externa.

Divulgo esta situação pessoal não para me “armar em vítima valente”, nem tão pouco arvorar-me em exemplo do que quer que seja. Na verdade, sou um medroso de primeira. Apenas porque sinto dever fazê-lo. Sou católico. Acredito em Deus. Respeito quem professa outros credos ou jurou fidelidade a outras confissões. Por isso, sinto-me no direito de reivindicar igual tolerância e respeito. Nunca tendo perdido a minha Fé – que o apóstolo Paulo define significativamente como “a posse antecipada daquilo que se espera, um meio de demonstrar realidades que não se vêem” – permiti, por culpa própria, o empobrecimento do meu diálogo com Deus. Perdi lucidez, humildade e autenticidade. Mas nada acontece(u) por acaso. Precisei Dele e Ele não me abandonou. Nunca pensei ser credor de tão grande Amor. Em bom rigor, o Seu Amor é (mesmo) infinito. A fé salva-nos. Escrevo sobre o que passei porque, para quem viveu ou estiver a viver algo parecido, sabe ser importante ver e sentir uma luz. Sabe ser importante sentir a presença de ALGUÉM, que não permite que caminhemos sozinhos. Que este humilde relato sirva para constar que, quando precisamos e cremos verdadeiramente, há sempre ALGUÉM que connosco caminha e, se necessário, nos pega ao colo. Não querendo convencer ninguém, eu sou testemunha viva disso. Vi e senti que me “pegaram” ao colo.

 

NOTAS FINAIS:

-          Um sentido agradecimento aos (poucos) familiares, amigos e colegas que entendi comigo deverem partilhar este momento, ainda assim edificante da minha vida. Foram excepcionais na atenção, no apoio e no carinho. Espero saber retribuir.

-          Igualmente sentido o reconhecimento aos médicos Isabel Lapa e Rui Pereira pela orientação e esclarecimento prestados. Elogio fundado e rasgado aos competentes e prestigiados neurocirurgiões Marcos Barbosa e Varão Nolasco dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Foram de uma dedicação e rigor profissionais absolutamente notáveis. São do melhor que o país possui.

-          Por fim, uma homenagem à minha mulher. O que seria de mim sem ela?! Ela já o sabe há muito. Mas quero que o mundo inteiro saiba que, simplesmente, SOU PORQUE A AMO.

 


José Manuel Alho

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