Os Homens também...

 


Os homens fortes também

têm os seus momentos de cansaço

 

Augusto sente-se momentaneamente prostrado. Só ele sabe como o seu coração tem palpitado ao ritmo de um passo condoído e sugado por uma dor hemorrágica. Rosa, a prevista cúmplice de uma vida regada de boas expectativas, soube que o seu cancro na mama tem metástases difíceis de contrariar. Há meses que caminha, que procura melhores prognósticos para resgatar o prazer essencial de viver. As más notícias, ainda que pontualmente possam tornar os miseráveis em ricos, distinguem-se usualmente por fazer dos ricos miseráveis.

Sim. Augusto é rico. Tem uma riqueza invejável, que assegurará o futuro das duas próximas gerações. Além disso, é também um espírito forte, de uma pujança anímica singular. No olhar firme e charmoso que a todos dispensa, percebe-se o dom que lhe permite ouvir o que as palavras não dizem e ver o que as imagens não revelam. É um indivíduo com fibra. Nunca dormiu com os seus inimigos no pensamento nem lhes deu o gozo de lhe afugentarem o sono.

Contudo, o nosso empresário rico soube somente agora ser aplicável à vida humana uma máxima que tem repetido na disputada selva dos negócios: todos passamos por dificuldades. Algumas são imprevisíveis e inevitáveis.

De repente, a felicidade virou uma miragem no deserto, difícil de alcançar. A sentença de morte de Rosa não é reversível. Uma vez mais, vai ter de aprender. Aceitar o que os outros têm para dizer e não o que ele quereria ouvir.

Católico ciente dos seus predicados, decide entregar-se genuinamente à fé. Quando a fé se revela, a ciência cala-se. Na verdade, a ciência amansa a alma dos que pensam pouco.

Com dores, num processo imparável de degradação física, Rosa nunca soltou um gemido ou um lamento mais insubmisso. Devido às carências e às tormentas da doença, era de se esperar que tivesse uma personalidade amarga e irritadiça; mas era serena e agradabilíssima Estar a seu lado aquietava a ansiedade, relaxava o pensamento e acalmava as águas revoltas que turvavam o coração de Augusto.

Susceptível, ele indispõe-se com algumas visitas. Gente com comentários ocos, a roçar a falta de respeito. Vêm como se optassem por assistir a um drama intenso. Dos tais que só acontecem aos outros. Nesta altura, esperava gratidão das pessoas. Sofre porque os mais íntimos o decepcionam pois não correspondem às suas expectativas. Tinha ele passado anos a fio a pensar que as conhecia realmente!... No máximo, conhecerá a sala de visitas do seus mundos conscientes e nada dos espaços inconscientes.

Estará a ser tão forte como seria de esperar? Conclui, enfim, não conhecer grande parte das causas das suas inseguranças, dos momentos de hesitação e dos sentimentos mais ocultos. Augusto é hoje uma fonte de perguntas em busca de grandes respostas.

Numa conversa mais particular que nunca com o irmão David, reconhece ter-se tomado por um semideus. Foi sempre rápido a julgar e tardio a compreender.

Está de novo só. Rosa finalmente adormeceu. A noite tem uma duplicidade difícil de combater: impinge uma quietude apaziguadora, porventura regeneradora, mas impõe um silêncio triturador. Chora porque precisa. Porque merece sentir-se frágil. Afinal, os homens fortes também têm os seus momentos de cansaço.

José Manuel Alho

 

 

 

 

 

 

 

Comentários