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PADRES
Acredito em Deus. Sou católico e esforço-me para, em cada fracção de momento desta nem sempre útil existência, ser digno do amor e companhia que sinto guiarem-me numa caminhada que estará, todos o sabemos, longe de ser previsível e repleta de rosas. Somos seres humanos cuja essência não assenta, desiludam-se os presunçosos, no primado da perfeição. Ostentamos virtudes e carregamos defeitos, que nos desafiam a optimizarmos o bom e a superarmos as imperfeições, na dolorosa construção de um equilíbrio sobre o qual (ainda) impendem sérias dúvidas se será ou não alcançável.
Nesta óptica, a Igreja que professo é feita de homens, que, em rigor, não serão bons nem maus; serão, principalmente, conforme. Para os que só agora acordaram para essa evidência, os padres também são homens, com qualidades e limitações várias. Em resumo, comuns mortais como nós. Isso não os torna imunes à crítica, ao reparo, se consistente e fundamentado. De igual modo, não poderão, só por serem padres, transformar-se em alvos demasiadamente fáceis para ataques grosseiramente soezes e desprovidos de boa-fé. Não sendo a Igreja uma democracia na dimensão mais pura e fiel do termo, aceitará, estou certo, esta inevitabilidade inerente à liberdade de expressão e de pensamento, que (só) enobrece o Homem.
No mais, não cumprirá aqui ponderar reflexivamente os que, no seio da própria hierarquia religiosa, afiançam a dispensabilidade de “intermediários”, corrente teológica que pugna pelo esvaziamento de funções dos que “ousam” interpor-se numa relação supostamente individual, única e, por isso, inviolável. São questões que não cabem no âmbito desta despretensiosa meditação. Por mim, reconheço à figura do PADRE inegáveis méritos, que vão desde a dinamização das populações, passando pelos esforços de congregação comunitária até ao desenvolvimento de uma espiritualidade sã em prol de um ideário reconhecidamente atemporal.
Vou relatar um episódio que só julgaria possível se enquadrada numa qualquer rábula revisteira, excepcionalmente simples mas, também por isso, tremendamente esclarecedora. Não interessa onde teve lugar o sucedido, nem tão pouco os protagonistas de tão surrealista ocorrência. Vai perceber que o importante será a análise das atitudes e os presumíveis arquétipos mentais que os suscitaram. Imagine um convívio organizado por uma comunidade paroquial, num determinado local prazenteiro. De manhã, os crentes, irmanados por um espírito de comunhão e partilha, participaram nas celebrações religiosas. Uma poética mistura de fervor e recato, que muito designarão por fé. Seguiu-se o almoço. Convívio, alegria e o privilégio de se sentirem, nestes tempos de cruéis individualismos, parte de uma comunidade que percebe e sente tanto a alegria como a tristeza do amigo. Coisa rara. O “Sr. Padre”, que até então desconhecia, também lá estava. Em nenhum momento, cedeu à tentação de despir a batina, preta e já atacada pela “praga” da poeira, como se fizesse questão de ser visto e tratado por...”Sr. Padre”. Não se sabe até se terá tentado alguma aproximação a qualquer mesa durante o almoço. Enfim, cada um tem o seu estilo em função da sua personalidade.
À tarde, tempo de divertimento. Jogos tradicionais e a muito aguardada actuação de um grupo musical. O agrupamento lá faz as derradeiras afinações – “1,2,3...” e “ah! ah!...” – e inicia a cantoria. Maior normalidade que isto seria impossível. Para azar dos abnegados músicos e solistas, ainda a primeira música estava no seu início, com a assistência já a dançar, e o “Sr. Padre”, num estilo alucinado mas judicativo, a fazer lembrar o Diácono “Remédios”, entra de rompante e desaustinado no palco, pegando, com notória agressividade, no braço da primeira pessoa que encontrou – por sinal, uma criancinha totalmente vestida – e dispara, alto e bom som, em frente aos microfones: “ a menina sabe o que está a cantar ?! Ali, ao fundo existe um templo religioso !...” Bem, instalou-se a confusão. O pai da menina, os elementos do conjunto, absolutamente incrédulos, esboçaram a reacção possível.
Mas não é que o homem tinha jeito para a discussão?! Em tom incompreensivelmente exaltado e de dedo sempre em riste para quem ousasse dirigir-lhe a palavra, lá ensaiou dissertar sobre “esta música ordinária que desencaminha as melhores famílias”, “vocês sabem que há estudos que....”, “já pensaram bem no significado da palavra pimba ?!”, “as pessoas andam cegas; basta ter dois dedos de testa para ver que isto não se pode cantar perto de uma igreja!!” Os indivíduos do conjunto musical estavam siderados. Palavras como “morango”, “carro”, ”culinária”, “pau” ou até mesmo “vizinha” eram obra e congeminação do Demo. Já tinham actuado em tanto adro de igreja e nenhum padre os havia alertado para o risco que representavam para a sociedade... Todo o reportório estaria afinal interdito. Era, simplesmente, pecaminoso.
Só os paroquianos do “Sr. Padre” permaneceram serenos, não conferindo ao sucedido importância alguma. Fiquei perplexo. Por momentos, as pessoas assistiam refasteladas ao espectáculo protagonizado pelo prior em troca acesa de opiniões com os elementos da atracção musical convidada, enquanto a menina chorava, prometendo não voltar ao tablado. Tentei compreender o comportamento daquela comunidade até que alguém, ao lado, confidencia, “nós já deixámos de ligar ! Ele é assim....”
Depois de uns dez minutos de glória, o “Sr. Padre” lá se decidiu por abandonar o palco, que não era o seu, e permitir que o contrato oportunamente conseguido pela organização se cumprisse. As pessoas – homens e mulheres; novos e velhos – lá dançaram até à exaustão. E não é que o religioso assistiu ao espectáculo até ao fim ?! Tive pena do homem. Tentou, da pior forma, ser o “artista” da tarde e as suas “ovelhas” não lhe obedeceram porque, imagine-se, já “não ligam” ao que diz. Acabou desautorizado, num dia bonito a todos os títulos. Não foi merecedor do desejo de comunhão e partilha dos seus paroquianos. Entrei no carro e enquanto colocava o cinto de segurança, confidenciei com a minha mulher: ”nós, em Albergaria, temos um pastor a valer. Que ninguém o critique. O Padre Fausto é um santo!...”
Este episódio promoveria múltiplas abordagens. A maioria delas ficarão com o amigo leitor, agora que tem tempo para pensar em outras coisas que não as prestações do carro ou da casa. No entanto, permito-me criticar a postura de alguns (poucos) padres que se julgam donos da moral e da consciência colectiva e, que através das funções sacerdotais que exercem, se permitem, ainda que involuntariamente, manipular, controlar ou proibir o que quer que seja. Já o velho adágio determinava que “quem mal não faz, mal não pensa” e se o divertimento fosse, sem excepção e com penosa leviandade, conotado sempre com pecado, a vida seria sempre em tons de cinzento e não mais se fariam festejos religiosos ou outros. Para mim, Deus é alegria, paz e comunhão no respeito pelo direito à vida, à dignidade e, acima de tudo, à felicidade. E não me consta que, alguma vez, a censura tenha contribuído para a felicidade de alguém.
José Manuel Alho
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